quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Parte 11 - O anjo da guarda

Ouviu um barulho estridente. Uma buzina de um carro, talvez.
A sua boca sabia a terra húmida e as costas doíam-lhe terrivelmente.
Rodou o corpo para conseguir tirar a cara do chão e piscou os olhos tentando perceber onde estava.
“Serviço de quartos”
Levantou-se de um salto e olhou na direcção daquela voz que lhe soava tão familiar.
“Dave?”
Dave aproximou-se com o seu eterno sorriso nos lábios.
“Olá Matthew. Noite animada? Não te fica mal o estilo sem-abrigo, mas está um bocado fora de moda, não?”
Matt olhava para Dave, boquiaberto. Estava quase irreconhecível sem os seus habituais calções largos e t-shirt. Trazia vestido um fato caro e uma gravata preta com finas riscas vermelhas. Olhava para Matt de mãos nos bolsos, com aspecto de gangster moderno.
“Anda daí”, disse enquanto rodeava Matt com um braço, “Parece-me que precisas de uma vida nova.”
“Que… Dave? Como me encontraste? Que roupa é essa?”
“Tudo a seu tempo. Primeiro, tomas um banho enquanto te preparo qualquer coisa para comeres. Vá, entra.”
Matt fitava-o, apático, enquanto ele o conduzia, num automóvel preto, de aspecto americano, e estacionava em frente do portão de uma enorme casa que lhe parecia uma mansão.
Tomou banho e olhou para o seu reflexo no espelho que cobria toda a parede da casa de banho. Parecia ter envelhecido vários anos, nos últimos meses. A barba e o cabelo compridos e desgrenhados davam-lhe um ar desmazelado e triste.
Desceu as escadas, enquanto acabava de se secar.
Sentou-se em frente a um prato de ovos mexidos com bacon. Dave tinha desapertado a gravata e estava, de pernas cruzadas, com um copo de vodka com gelo pousado na mesa ao lado, a dedilhar a guitarra Fender de Matt.
“Impressionante. Preferes dormir com a cara enfiada na lama do que vender a guitarra para pagar um quarto numa pensão?”, disse Dave em tom de gozo.
“Preferia ter que comer a guitarra do que vendê-la para comprar comida. E não estou assim tão mal… Ontem provavelmente não estava suficientemente sóbrio para encontrar uma cama.”
Dave pousou a guitarra no sofá e voltou para a mesa. Sentou-se a observar Matt, com interesse, enquanto ele levava uma garfada de ovos mexidos à boca.
“’Tão, vaich-te echplicar ou quê?”
“Não fales de boca cheia. Até a tua guitarra é mais asseada que tu.”
“Dave…”
“Ok, ok.”, riu-se, “Que queres saber?”
“Carro? Roupa? A casa? Esse sorriso estúpido que nunca acaba?”, disse Matt sem paciência.
“Bem, o sorriso sempre o tive”, Matt fez cara de enjoado, “Quanto ao carro e a roupa… Lembras-te da banda que tínhamos? Claro que te lembras. Pois bem, pouco tempo depois de cada um ter ido para seu lado, a Stephanie telefonou-me a dizer que as vendas tinham disparado, e que, aparentemente, depois de tu e a Danny desaparecerem, deixando-me só e abandonado naquele estúdio deprimente que já foi o nosso lar, e tendo em conta que tanto tu como a Danny deixaram bem claro que não queriam ter mais nada a ver com a banda… Fiquei encarregue de gastar o dinheiro das vendas como bem entendesse.”
Matt ouvia-o com uma fatia de bacon frito suspensa a dez centímetros da sua boca aberta.
“E, enfim, não gosto de dormir ao relento nem de andar por aí a cheirar a vodka e mijo de cão, ao contrário de certas pessoas”, rasgou um sorriso, “Agora tenho que ir andando. Tenta não fugir outra vez. Foi mais difícil encontrar-te do que imaginas.”, disse enquanto se levantava e se dirigia para a porta.
“Dave, espera. Não vou ficar a viver contigo… E o dinheiro das vendas é teu. Eu disse que não queria nada disso e mantenho a minha palavra, mas não posso ficar aqui.”
“Não vais viver comigo”, disse Dave, “A casa é tua. Prenda de aniversário. Parabéns Matt.”, e saiu, fechando a porta atrás de si.
Matt deixou-se ficar imóvel enquanto ouvia o poderoso motor do Toronado afastar-se.
Nem se lembrara de que era o dia do seu aniversário.


Dave, sentado dentro do carro, sobressaltou-se quando Matt entrou de rompante pela porta do passageiro.
“’Bora”, disse Matt, e encostou a cabeça para trás, de olhos fechados.
“Que se passou?”
“Arranca, David.”
Dave rodou a chave na ignição, ligou as luzes e afastou-se da sala de ensaios.
A viagem fez-se longa e silenciosa. O único som além do motor do Toronado era o de Matt a expelir o fumo dos cigarros.
Estacionou o automóvel em frente ao portão da casa de Matt.
“Desculpa Matt… Não pensei que ainda tivessem tanto por resolver.”, disse Dave, olhando em frente. “Não tens que fazer isto só para me agradar”
“Dave…”
Olhou para Matt. Os olhos brilhavam-lhe e tinha um sorriso enorme nos lábios.
“Adorei. Obrigado. Começamos amanhã a trabalhar no estúdio. Vou telefonar à Stephanie para combinar tudo.”, disse Matt.
Dave sorriu de alívio.
“Por momentos assustaste-me. Já estava a pensar que raio iria eu fazer com um estúdio sem ninguém para o usar.”
Riram-se ambos, com vontade.
“Se continuas assim, não sei o que me vais oferecer para o ano. No ano passado, uma mansão, este ano, uma vida nova.”
“Para o ano ofereço-te um carro. Já não basta ter que te dar boleia, ainda tenho que aguentar o cheiro a tabaco nos estofos…”
Matt agarrou-o pelos ombros e abraçou-o com força.
“Feliz aniversário, Matthew.”, disse enquanto lhe dava palmadinhas nas costas.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Parte 10 - Opções

“Que barulho é este?”, resmungou enquanto se levantava ainda com os olhos semicerrados. “Eu sabia que não devia ter vindo morar para um prédio de universitários”. Encheu um copo de água e dirigiu-se para perto da janela da cozinha. Ficou a admirar por um instante o céu extremamente azul daquela manhã de sábado, tentando vencer a claridade que lhe feria os olhos. Espreguiçou-se e depois olhou para baixo. Na rua os rapazes jogavam à bola e faziam a habitual algazarra. Sorriu e começou a lembrar da sua infância, de como era óptimo não ter preocupações e medos. Principalmente medos. De arriscar, de dar o primeiro passo.
Pousou o copo e começou a abanar a cabeça como que, se dessa maneira, os pensamentos ruins o abandonassem. “Vá coragem! Só vais estar com a mulher que amas. Não é nada demais”, disse numa voz alta, grossa e confiante. “Bem, é só um dos momentos mais importantes da tua vida”. Abanou de novo a cabeça e foi arranjar-se, faltava apenas uma hora até encontrar Joan.
Era colega de Allison no escritório de advogados e, mesmo ao fim-de-semana, não largava os trajes formais e sóbrios. Não sabia bem porquê mas era como se sentia bem, ou por demonstrar a sua classe social ou porque condizia com a sua personalidade. Perfumou-se e arrumou o frasco. “Mais um pouco”.
Parou em pé e respirava fundo como que à espera de um sinal enquando olhava para o violão, cuidadosamente pousado no sofá. “Tenho a certeza. É isto que quero fazer. É ela.” Pegou-lhe e saiu do apartamento sem olhar mais para trás.
Tinham combinado encontrar-se num jardim situado no centro da cidade, perto da esplanada onde costumavam ir tomar café. Ao aproximar-se do ponto de encontro com o violão às costas, viu-a sentada calmamente num dos bancos junto à fonte.
“Olá J”, disse carinhosamente.
“Senhor Alexander. Estava a ver que nunca mais chegava.”, disse em jeito de picardia. “Porque andas tu com um violão?”, perguntou enquanto soltava gargalhadas.
“Espera. Não digas nada. Ouve-me só”
Alex começou então a tocar e a cantar uma música romântica para ela, enquanto esta o olhava boquiaberta. Ele passara as últimas semanas a ter aulas para aprender a tocar e a não cantar tão desafinado às suas escondidas. Tudo por ela. Tudo porque sabia o quanto ela adorava música e o solo daquele instrumento. Tudo porque também sabia do seu forte relacionamento com um músico. Joan adorava o mundo artístico e ele não, mas sempre se esforçava para compensar essas diferenças de modo a não criar barreiras.
Num minuto começaram a ser rodeados por pessoas que batiam palmas e soltavam algumas palavras, umas a incentivar outras a zombar, mas nada o fazia perder a atenção que há quatro anos estava presa na bonança do profundo mar azul dos olhos de Joan.
Enquanto o ouvia, por momentos imaginou que era Matt no seu lugar e sorriu de felicidade como se tudo de repente finalmente se encaixasse e fizesse sentido. Mas rapidamente se apercebeu que era só uma fantasia do seu coração.
No final da serenata, ele pousou o violão no chão, tirou um anel do bolso, ajoelhou-se e disse as palavras que estavam entaladas há algum tempo.
“Joan, queres casar comigo?”
Ela não conseguia balbuciar nenhuma palavra e sentia-se projectada para uma outra dimensão como se um buraco se tivesse aberto por debaixo dos seus pés e ainda estivesse em queda livre. Não sabia o que pensar. Não sabia o que estava a sentir. Não sabia o que dizer.
Alex e as pessoas que assistiram a tudo aguardavam ansiosamente alguma resposta. Qualquer coisa.
“Joan...”
“...Podemos falar em privado?”, respondeu finalmente.
“Ah...claro claro...desculpa”, disse. Agradeceu ao público enquanto se levantava e afastou-se finalmente com ela para uma parte deserta do jardim.
“Alex...eu gostei imenso da surpresa...uau, aprenderes a tocar violão por mim...mas o pedido, é um tanto precipitado não achas?”
“Não...pensei muito e não acho.”
“Não te quero magoar, mas eu apesar de gostar muito de ti não gosto o suficiente para dar este passo contigo. Ao ver-te a tocar, por momentos lembrei-me dele. Perdoa-me. Não queria sentir nada disto, queria poder dizer-te que sim”, disse enquanto começava a chorar.
Ele não disse mais nada. Mas com os seus olhos inundados de água, não era preciso. De cabeça baixa, virou-lhe as costas e foi embora.
“Espera...vamos conversar”, gritou Joan sem ficar surpreendida de ele não ter parado. Nunca falava dos seus sentimentos nem se sabia expressar. Sempre sabia o que ele sentia pela forma como a olhava ou pelos seus gestos românticos. Desta vez, ironicamente ela também não sabia o que dizer. Só voltaram a falar poucas semanas depois, numa conversa onde ele depositou nela toda a sua raiva e frustrações como que experimentando pela primeira vez dizer tudo o que sentia de uma vez só. Nunca mais falaram até ele ligar.

Após os telefonemas inesperados, Joan ligou para Allison.
“Porque não me disseste que o Alex se ia casar?”

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Parte 9 - O que ficou por dizer

“Olá Mattie”
“Stephanie?...”
Matt estava incrédulo. Os seus olhos saltavam de Stephanie para Dave como que à procura de uma explicação para a presença dela ali.
“Vou deixar-vos sozinhos. Devem ter muito para falar”, disse Dave com um sorriso, e saiu.
Stephanie olhou para Dave enquanto ele caminhava pelo corredor, e esperou para o ouvir fechar a porta da rua. Piscou os olhos, e sem olhar para Matt, foi-se sentar em frente à mesa de mistura, examinando-a enquanto acendia um cigarro.
Matt continuou estático, apenas girando como um girassol na direcção de Stephanie. Reparou que estava ainda de boca aberta e aproveitou para fechá-la.
“O que achas?”, ouviu-a dizer, sem olhar para ele.
Matt engoliu em seco tentando perceber ao que ela se referia.
“Stephanie?... Que…”
“Acho que isto é algo que tem pernas para andar, não?”, interrompeu-o, “O Dave fez um óptimo investimento. Lá por metade da banda já não existir não quer dizer que tenha chegado ao fim, não é? Não era isso que querias?”
Stephanie olhou para Matt que estava outra vez de boca aberta, atarantado a olhar para ela.
“Não era esse o teu sonho? Poder continuar o trabalho sozinho?”
Matt estremeceu, como se tivesse acordado de um transe.
“Eu… Tu… Que estás aqui a fazer?” , conseguiu balbuciar.
Stephanie soltou uma gargalhada sonora e colocou um meio sorriso, sarcástico.
“Não é óbvio? Venho mais uma vez colocar o meu carisma, conhecimento e contactos ao vosso dispor, em troca de uma percentagem justa dos lucros.”, apagou o cigarro, “Não foi isso que sempre fiz?”
Matt deu um passo na direcção dela.
“O que estás aqui a fazer?”, disse Matt. A sua expressão era agora um misto de incredulidade e raiva, “Estás a tentar magoar-me? Qual é a tua ideia?”
A expressão de Stephanie ficou pesada. Levantou-se e foi ter com ele, num passo calmo, distraído.
“Como queres que te fale Matthew?”, disse, sem emoção. Estava agora a menos de um passo dele. Olhava para o chão enquanto falava. “Queres que me atire aos teus braços e faça de conta que nada aconteceu? Queres que te dê a mão para a poderes largar outra vez?”
Matt não respondeu.
“É ISSO QUE QUERES?”, gritou Stephanie enquanto o empurrava violentamente contra a parede atrás dele, “DESTRUIR A MINHA VIDA OUTRA VEZ?”, e deixou-se cair no chão, de joelhos, sem conseguir conter as lágrimas.
Matt olhava-a de olhos muito abertos.
“Stephie…”


“Não está a funcionar Stephie…”
Ela olhava para o outro lado da estrada, sem expressão.
“A banda foi-se, eu não sei para onde vou, tu vais continuar o teu trabalho com alguém…”, continuou Matt.
“Que vais tu fazer Matthew? Arranjar um emprego?”, soltou uma risada curta e seca.
Matt pegou-lhe no braço e virou-a para si.
“Quero tocar. Vou tocar. Sozinho”
Ela afastou-se e deu uma passa no cigarro, devagar.
“Matt… A vossa banda era algo de fenomenal. O público adorava-vos. Não a cada um, mas a todos, ao conjunto. Sozinho não fazes nada, e tu sabes disso. Se não ficares comigo, acabas a dormir na rua”
“É essa a opinião que tens de mim, Stephanie?”, gritou.
Ela continuou a fumar calmamente. Olhou para ele de lado, durante uns segundos, sem dizer nada, e voltou a concentrar-se no cigarro.
“Veremos”, disse Matt, com um esgar de raiva. Pegou na mala da guitarra e desapareceu.



“Stephie…”
Nunca pensou que ela nutrisse por ele um sentimento tão forte. Nunca o mostrara. Nunca a tinha visto a mostrar qualquer sentimento, pensou ele. Muito menos, a chorar.
Tentou pousar-lhe uma mão no ombro, mas ela afastou-se.
“Matt, pensas que depois daquele dia fui à minha vida, feliz e contente? Enganas-te. Nunca deixei de pensar em ti.”, pela sua face escorriam lágrimas brilhantes, que ela tentava agora tapar com as mãos.
Matt ajoelhou-se à frente dela. Puxou-a contra si e abraçou-a carinhosamente, tentando acalmá-la.
“Desculpa…”, disse Matt encostando os lábios ao ouvido dela, “Nunca te quis magoar… Não pensei… Não pensei que gostasses mesmo de mim, sabes?”
Deixaram-se ficar abraçados, de joelhos no chão, durante muito tempo.
Desde o dia em que se tinham separado, Matt pensava nela diariamente. Nunca a esquecera, mas também nunca tencionara voltar. Ele amara Stephanie, mas nada é eterno. Durante o tempo que passara sem ela tudo se esfumara, parecendo-lhe agora uma ilusão, um desenho na areia que o vento foi apagando.
Segurava-a nos braços e quase chorava. Tinha pena de não ter dado certo entre eles. Eram perfeitos, na altura. Como é que as pessoas mudam tanto? Porque é que só agora se apercebia de quem era, e de quem ela era, na realidade?
Lá fora, começava já a anoitecer.
“Mattie?”
Stephanie afastou a cara do seu peito e olhou-o nos olhos com uma expressão terna, mas triste.
“Sei que devia ter dito isto há muito tempo, mas…”, desviou o olhar por momentos, e voltou a fixá-lo no dele, “Eu amo-te”.
Matt afastou-se, repentinamente, e pôs-se de pé.
Estava de costas para ela. Ela olhava-o sem perceber.
“Sim Stephie…”, disse, com a voz trémula, “Já devias ter dito isso há muito tempo…”
“Matt…”
Matt deixou-se ficar inerte durante muito tempo. Olhava para a parede à espera que esta lhe desse uma resposta para todas as perguntas que tinha na cabeça. Porquê agora? Porquê assim?...
Levou uma mão aos olhos e esfregou-os para conter as lágrimas, e suspirou.
“Agora, já nada faz sentido”, disse, enquanto abria a porta, “Desculpa…”
“Vais me virar as costas e fugir outra vez, Matthew?”, disse ela em voz baixa, com as mãos no chão, os cabelos negros à frente dos olhos.
“Vou”, disse Matt, “Mas desta vez já não quero que venhas atrás de mim”
Stephanie levantou os olhos para ele. Ele sorria, um sorriso triste. Também ele tinha lágrimas nos olhos.
“Também isso, já o devias ter feito há muito tempo”

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Parte 8 - Sombras do passado

Joan atendeu o telemóvel.
“Sim?”, disse com uma voz um pouco desconfiada.
“Olá J. Como estás?”
“Alex? És mesmo tu? Bem, nem sei há quanto tempo não sabia nada de ti”
Do outro lado da linha ouviu-se uma gargalhada forçada. “Pois, precisei de algum tempo para pôr as ideias em ordem. Mas não liguei para falar disso.”
“Não? Então?”
“Bem, só pensei que devia avisar-te que me vou casar. O convite deve chegar aí dentro de dias, mas quis dizer-to antes”
“Hum...vejo que há grandes novidades para esses lados. Parabéns. Não sei o que dizer, apanhaste-me desprevenida.”
“Imaginei que sim. Por isso espero ter atenuado o espanto ao ligar-te. E era isso. Agora tenho mesmo de desligar, mas depois falamos melhor. Espero que venhas.”
“Claro que sim.”, disse com pouca convicção.
“Até breve, beijo”
“Beijinho”

Por vezes temos a sensação que conseguimos esquecer totalmente as pessoas, até ao momento em que a vida mostra precisamente que quando as reencontramos conseguimos lembrar-nos de pormenores ínfimos e até ridículos. Joan não sabia de Alex há quase dois anos, desde aquela noite...aquela em que a relação deles mudou. Mas, de repente as lembranças do tempo que passaram juntos, surgiram como uma tempestade e atordoaram-na.
“É nestes momentos em que me sabes melhor”, disse enquanto tirava um cigarro do maço de tabaco e se dirigia para a varanda. Apesar de ser uma fumadora, detestava o cheiro do fumo dentro de casa e no carro.
O vento soprava forte e com violência. Precisou de várias tentativas para o conseguir acender. A inesperada notícia deixou-a pensativa e confusa. Por um lado, estava feliz por ele ter restabelecido a sua vida e ter encontrado alguém que gostasse dele. Mas, por outro, isso levou-a a ter uma visão crítica sobre a sua própria vida e de como estava longe de se sentir feliz e realizada emocionalmente.
Alex era um homem sério, ponderado, romântico, extremamente adulto e de princípios. Era daqueles que nascem para ter um bom emprego, uma família perfeita. No fundo, uma vida considerada como “normal” para a sociedade rígida, retrógrada e intolerante em que vivemos.
“Será que tomei a atitude certa? Será que devia ter dito que sim?”
Joan tentou afastar estes pensamentos da sua cabeça para se focar no problema principal que se havia criado.
“Será que devo ir ao casamento? Como vai ser rever a família dele e os amigos? Que me vão dizer? Como me vão olhar? Se não for será que é pior?”
Nisto o ecrã do telemóvel de Joan ilumina-se com o nome “Alex” a piscar.
“Estou?”
“Joan? Olha é verdade, esqueci-me de te pedir um favor”
“Sim, diz...”
“No casamento queria cantar uma música para a minha noiva, mas queria que fosse original. Será que não me podes escrever uma?”, falou como se fosse um menino a pedir um brinquedo qualquer aos pais.
“O quê??”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Parte 7 - O Último Concerto

Deitado num sofá, numa sala pequena e mal iluminada atrás do palco, Matt ouvia as vozes do público que teria de enfrentar dentro de minutos. De olhar fixo no tecto, beberricava com ar cansado uma garrafa de vodka.
Dave estava sentado no chão, de costas apoiadas no sofá, com um sorriso na cara, como sempre. Discutia um assunto qualquer com Danny. Do pouco que Matt ouviu da conversa, pareceu-lhe que Danny tinha algo contra homens que não tiravam as meias antes do sexo.
Danny era a vocalista da banda, Danielle. Antes de entrar na banda, nenhum deles a conhecia. Apareceu do nada, num dos ensaios, e disse "Ouvi dizer que estão à procura de vocalista", e mal a ouviram cantar, foi aceite por unanimidade. Tinha uma voz espantosamente versátil, e desde a primeira música que notaram uma química entre a voz dela e o tipo de música que pretendiam criar.
"Experimenta foder sem tirar as cuecas, David. Vais ver que não é a mesma coisa", disse Danny a meio de um ataque de riso. Dave atirou-lhe uma almofada rasgada e uma nuvem de pó e algodão encheu o ar, fazendo-os tossir enquanto se riam e rebolavam pelo chão como crianças.
Quase desde que se conheceram, sempre tiveram uma relação muito próxima, apesar de nunca se envolverem físicamente. Uma relação de irmãos.
Gregory, o génio da banda, estava sentado no outro sofá, em silêncio, enquanto enrolava um charro. Era sobredotado, e uma pessoa de enorme talento, em praticamente qualquer área. Quando entrara para a banda não sabia distinguir uma guitarra de um baixo, e passado uma semana já conseguia acompanhar Matt e Dave sem precisar de grandes explicações. Mas, sem dúvida, o que lhe tinha concedido o passe de entrada para o grupo fora a sua escrita poética, pela qual Dave se apaixonara desde o primeiro verso. Fumava constantemente, tanto que Danny certo dia dissera-lhe que a sua pele estava a ficar cinzenta do fumo do tabaco, dando-lhe a alcunha de Gray.
O volume das vozes do público aumentava gradualmente. Matt engoliu o que restava da garrafa de vodka e levantou-se, ao mesmo tempo que Stephanie abria a porta e os avisava que o espetáculo estava prestes a começar.
Dirigiram-se ao palco. Matt e Gray iam à frente. Gray inexpressivo, Matt com uma expressão taciturna no rosto, uma mistura de mau humor com tristeza. Atrás os dois irmãos seguiam abraçados e risonhos.
Entraram em palco e foram recebidos por gritos e assobios do público em êxtase. Era uma multidão enorme, que ocupava praticamente todo o relvado do estádio de futebol em que o concerto tinha lugar, e ainda uma boa parte da bancada.
Assumiram os seus lugares habituais em palco. As luzes do palco diminuiram de intensidade, deixando-os numa ténue penumbra azul celeste. O público fez silêncio, e aguardou expectante.
Uma luz clara incidiu sobre Danny. Ela caminhava pelo enorme palco no seu passo suave, saboreando a tensão causada pelo silêncio das milhares de pessoas que tinham os olhos postos nela.
Dos seus lábios, começou por sair um murmúrio suave e sensual, como um beijo, que foi aumentando num crescendo de emoção, deixando o público em transe, enquanto Danny os hipnotizava, com a voz cada vez mais elevada. O baixo agora acompanhava a voz, num ritmo constante mas que se ia tornando mais forte, mais profundo. A guitarra ia soltando pequenos sons que ecoavam cristalinos e brilhantes. Os pratos da bateria faziam o coração saltar, e toda a multidão era percorrida por arrepios de prazer na espinha. Danny cantava agora com raiva, com ódio, e a música era uma tempestade, que fazia o mundo tremer.
De súbito, um grito furioso e prolongado soltou-se da sua boca. Os outros instrumentos pararam, o público susteve a respiração, e o grito de Danny ecoou e voou para longe.
Após vários segundos de silêncio milhares de pessoas saíram do seu transe em simultâneo, e gritaram a plenos pulmões, em delírio, como se tivessem acabado de assistir ao acontecimento mais belo das suas vidas, como se a sua existência dependesse disso, gritavam, saltavam, e comprimiam-se uns contra os outros como sardinhas em lata.
Danny sorria e fixava o público com o seu olhar sensual, sentindo-se uma deusa em cima de um altar. Apetecia-lhe saltar para a massa de pessoas que se esticava na sua direcção, e deixar que a segurassem acima deles e a fizessem flutuar por cima das suas mãos como se voasse.
Ouviu um baque e um som electrico intermitente. Sem perceber porquê as vozes do público ficaram mudas.
Só se voltou quando Matt passou por trás de si a correr na direcção de Gray, que se encontrava estendido no chão, com o corpo a ser atacado por espasmos violentos.

As luzes apagaram-se e o público rugiu indignado.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Parte 6 - Destino

Era alto, mas franzino. Parecia furioso quando bateu com os nós dos dedos no vidro do carro mas, mal abriu a boca, essa primeira impressão foi dizimada pela sua voz doce e pausada.
“Não olha por onde anda?”
“Desculpe. Hoje não é um bom dia. Estou muito atrasada e nem vi o seu carro.”
“Hum..hum..”
“Mas não se preocupe que o meu seguro cobre tudo!”
“Está tudo bem. Acontece a todos.”
Após a habitual troca de dados, dirigiu-se finalmente para a Faculdade de Letras onde avisou os alunos que a aula seria compensada noutra hora e que estavam dispensados.
Enquanto se dirigia para a sala de professores, ouviu uma voz bem-disposta.
“Joan?..Bom dia”, disse Jenny com um enorme sorriso.
Era uma das suas melhores amigas e lecciona a cadeira de História da Arte. Tinha a particularidade de fazer sorrir toda a gente e, por isso, era uma companhia imprescindível.
“Bom dia. Hoje devo vencer os teus azares. Ao vir para o trabalho bati num carro de um homem.”
“Interessante. É giro e tem nome?”
“Tem nome e não é giro. Mas tem ar de ser boa pessoa, porque nem sequer ficou muito aborrecido.”
“Então não percebo onde é que tiveste azar. Só se não ficaste com o número de telefone dele.”
Joan riu-se. “Por acaso fiquei, mas só porque tivemos de trocar contactos por causa do acidente.”
“Interessante. Mas conta-me tudo ao almoço que a Allison já deve estar à nossa espera no restaurante do costume”.
Quando chegaram não viram a sua amiga, então meteram conversa com o dono. O senhor Noah era sempre simpático, recebendo-as com alguma piada na ponta da língua. Depois ria-se e o seu bigode e aspecto rechonchudo tornavam-no completamente paternal.
Entretanto avistaram Allison do outro lado da rua. É advogada, por isso usa sempre um vestuário mais formal e uma cara séria. Talvez devido à sua formação profissional era sempre racional em relação a qualquer assunto, o que ajudava muito Joan. Era a sua melhor amiga desde o secundário e conhecia mais de si do que ela mesma, o que por vezes até achava estranho.
“Desculpem o atraso. Pessoas. Problemas. Teimosia. Pessoas mais problemas igual a teimosia que sobra para a Justiça e que me faz atrasar”.
“Ih...que bom humor”, brincou Jenny, “Joan conta-lhe o teu acidente que pode ser que ela se ria”.
Joan contou então tudo o que aconteceu desde a noite passada até ao acidente. As amigas passaram o almoço a incentivá-la a ligar a Seth, “o homem que parecia boa pessoa”. No fundo, incentivavam-na a ganhar vontade de encontrar alguém por quem se voltasse a apaixonar. Era quase um ritual diário. Mudava apenas o alvo. Desta feita era Seth cujo nome ecoou em cada frase dita.
Depois de dar as suas aulas, Joan resolveu voltar directamente para casa. Sentia que tinha passado o dia a correr, sem tempo para pensar em nada. A caminho ria-se ao pensar nas piadas das amigas sobre como o destino se tinha fartado de esperar que ela agisse e então se calhar resolveu “chocar” contra ela.
Entrou em casa e atirou-se para o sofá enquanto pensava na sua vida emocional. Quase imediatamente ouve o telemóvel a tocar dentro da mala. Contrariada volta a levantar-se e pega nele.
“Só podem estar a brincar comigo...”

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Parte 5 - Ela

Mal o Toronado cortou para um acesso secundário ao lado de um vasto eucaliptal, Matt adivinhou qual a grande surpresa de Dave. Lembrava-se da primeira vez que ali fora, ainda o eucaliptal não passava de uma área enorme cheia de plantas silvestres rasteiras, com carreiros e sulcos abertos pelas rodas das motas dos adeptos do motocross que costumavam por ali andar aos saltos, a maioria deles em motoretas dos avós.
O toronado voltou a cortar, uns minutos depois, desta vez para uma estrada de terra batida ladeada de um lado pela parede de uma encosta íngreme, e do lado oposto por um riacho fundo de águas vagarosas. Sempre tivera medo de passar naquela estrada. Parecia poder ruir a qualquer momento.
Dave sorria. Matt não sabia, mas sorria tanto ou mais do que ele. Já não visitava aquele lugar desde os seus 15 anos de idade e ao longo de todo esse tempo, poucas vezes se lembrara dele. É estranho, como as memórias mais importantes têm tendência a ser esquecidas até ao momento em que chocam connosco de frente.
Saíram do automóvel e olharam em volta como se tivessem entrado num filme projectado pelas suas memória. Nada havia mudado.
"Que tal?"
"Nem acredito...", riu-se Matt, "A nossa primeira sala de ensaios!"
Entraram. O interior estava escuro e frio, como sempre estivera no início dos ensaios. Matt acendeu um isqueiro.
Algo não fazia sentido, mas não conseguia perceber o quê. Lembrava-se da primeira vez que entrara naquele edifício. Tivera a mesma sensação de escuridão permanente que agora, enquanto percorria o corredor que dava acesso ao compartimento principal, mas desta vez, quando passou por baixo do arco que os separava, sentiu que se lembrava da sala de ensaios mais ampla. A luz do isqueiro não lhe permitia mais do que notar algumas silhuetas sombrias à sua frente.
No instante em que Dave ligou a luz, o seu coração saltou.
A sala tinha-se transformado. Não era a sala onde tinham feito inúmeras sessões musicais, e outras menos musicais, muitos anos antes. Não era, muito menos, a sala triste e vazia de que se lembrava quando o seu olhar pousara nela pela primeira vez.
Dave sorria como se aquele fosse o melhor dia da sua vida. Nunca o vira sorrir tanto. E ele tinha o hábito de estar constantemente a sorrir.
"Dave..."
Matt olhou em volta mais uma vez, preplexo, abismado.
A sua velha sala de ensaios não estava ali. Em seu lugar, Dave montara um estúdio de música profissional, com duas divisórias à prova de som, e todo o material que ambos tinham já visto diversas vezes ao longo da sua carreira musical.
"Dave..."
Matt não conseguia falar, os seus olhos, reparava agora, estavam embaciados com as lágrimas que lhe escorriam pela face.
Dave sorria cada vez mais enquanto via o amigo a passear devagar pelo compartimento, a passar a mão em cima da mesa de mistura, como se a acariciasse.
"Ainda não acabaram as surpresas Matt", disse Dave. Matt virou-se para olhar para ele.
"Convidei alguém que precisava de te ver. E sei que tu também precisas.", disse.
E detrás dele saiu uma rapariga baixinha e magra, com cabelos pretos, compridos, pelo fundo das costas. Trazia vestida uma mini-saia preta e uma t-shirt branca com manchas pretas que, Matt sabia, tinha sido ela própria a fazer. Dos seus pulsos pendiam inúmeras pulseiras das mais variadas cores e feitios, e no pescoço, do lado esquerdo, via-se uma cicatriz cor-de-rosa, fina e comprida. Os seus olhos eram de uma tonalidade de castanho-claro que os tornava vivos e alegres.
Era ela.
"Olá Mattie"
"Stephanie?..."

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Parte 4 - Azares...

Joan acordou com umas pequenas partículas de luz a bater-lhe na cara como se estivessem a espreitar curiosas por entre as frechas da persiana. Mexeu-se na cama para ganhar coragem de se levantar, mas ouviu o barulho peculiar de algumas folhas a cair. “Ainda agora começou o dia e já está esta confusão”, resmungou como se alguém a estivesse a ouvir.
Num dia normal teria se deliciado com o sol a invadir-lhe o quarto de uma luz carregada de esperança e com a serenidade e paz que o barulho do mar lhe trazia. Foi essa a razão de se mudar para a praia. Por si e para conseguir escrever sem grandes distracções.
Levantou-se com o mundo em cima dos ombros, abriu a persiana e foi à varanda. Respirou fundo e abriu os braços como que à espera que o vento a levitasse, transportando-a para outro mundo. Um mundo onde pudesse voltar a sentir-se completamente feliz. E apesar de tudo, sorriu. "A beleza do mundo e a alegria das coisas conspiram contra os maus sentimentos a toda a hora. Nós é que não nos deixamos levar". Com isto em mente o seu sorriso tornou-se sincero e não apenas uma forma de se enganar.
Regressou ao quarto e viu a meia dúzia de folhas no chão. Lembrou-se que ontem não conseguia dormir e fez alguns rascunhos de poemas. Apressou-se a apanhá-las. A bagunça recordava-lhe o desespero e a dor da noite passada. Mesmo assim, não aguentou a curiosidade e leu o que estava escrito numa das folhas.

“Ameno inverno,
Nascido em ti...
Amor eterno
Nascido em nós
Só tu,
Acalmas esta alma perdida
Só tu,
Fazes bater este teu coração
Leve e suave brisa ecoa no ouvido
Quando me sussurras.
Encontrei-me ao te pertencer
Venço o tempo só para te ter
Ergo-me confiante,
Para o melhor fazer
Porque és tu
Todo o meu ser...”


Suspirou. Mas antes que pudesse pensar sobre o assunto reparou nas horas e no quanto estava atrasada para ir dar a sua aula de Escrita Criativa. Guardou as folhas numa pasta e correu para arranjar-se.
Há quem espere que o tempo resolva todos os problemas emocionais e, desta vez, resolveu...pelo menos a curto prazo. Se não estivesse atrasada iniciava-se o ciclo de bombardeamentos de pensamentos e sentimentos que sempre a deixavam completamente em baixo, sem vontade para nada, sem auto-estima e num estado tão desesperado, consequência de não saber lidar com o que sentia. Parecia quase doentio.
Meia-hora depois, Joan estava a sair de casa no seu Audi A3 prateado. Mas desta feita o tempo já não estava a seu favor e a pressa custou-lhe um acidente contra um Toyota com poucos anos.
“Só me faltava mais esta”, pensou enquanto via um indivíduo a aproximar-se da sua porta com cara de poucos amigos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Parte 3 - Um lugar especial

Estava em cima de um palco, sozinho.
As luzes de néon na parede piscavam intermitentes a palavra "Sai".
Ele gritava e martelava as cordas da guitarra sem que nenhum som se fizesse ouvir. Em menos de um piscar de olhos, o bar estava cheio, mas ninguém no público se mexia, apenas olhavam, expectantes. Olhou para trás e os restantes elementos da sua banda não eram os seus amigos. Não eram ninguém. Apenas fantasmas sem cara, inertes como bonecos de cera.
Do meio do público soltou se um grito
"Matt!!", gritava ela tentando abrir caminho através das pessoas que mais pareciam uma floresta cerrada apenas criada para impedir a sua passagem.
"…", gritara, mas o som não saíra.
E foi então que o público ganhou vida, e se voltou para ela, esticando os braços, puxando-lhe pelas pernas, afogando-a num mar de gente, até que os seus gritos se deixaram de ouvir, superados pelas vozes monocórdicas da multidão que repetia "Matt… Matt…".
 
Acordou sobressaltado, sem fôlego.
Há muito que este pesadelo o assombrava, de tempos a tempos, mas apesar disso não conseguia evitar o pânico que o envolvia nos primeiros minutos depois de acordar.
Estava suado da cabeça aos pés, os lençóis ensopados.
Desceu ao andar inferior para ir preparar um vodka, que lhe fizesse companhia durante o banho longo que pensava ter. Ouviu o ruído frio do telemóvel a vibrar em cima da mesa de vidro da sala e acelerou o passo para o atender.
"Estou?"
"Matt?"
"Olá Dave", Dave era o seu melhor amigo, desde há tanto tempo quanto se conseguia lembrar. As suas amizades datavam dos tempos em que brincavam juntos no recreio da escola primária, e nunca se afastaram desde então. Tinham muito em comum. Melhor dizendo, sempre tiveram praticamente tudo em comum. O que um queria fazer, o outro não se opunha, e juntava-se-lhe.
"Matt, abre a porta"
Sem uma palavra desligou, e dirigiu-se à porta. Dave entrou e abraçou-o por segundos. Agarrou-lhe nos ombros e olhou para ele. "Estás bem?"
"Sim."
Virou costas e dirigiu-se ao mini-bar. Preparou 2 vodkas, com gelo.
"Fica à vontade Dave", e viu Dave sentar-se no sofá da sala enquanto subia com o copo na mão para tomar banho.
Deitou-se na banheira. Não podia passar o resto do dia com Dave se estivesse abatido: sabia que também ele iria sentir-se mal por si. Tentou animar-se, tirar da cabeça todos os pensamentos negativos. De qualquer forma, não adiantava pensar no passado, se nada podia ser feito para o mudar.
Saiu do banho e desceu as escadas a ouvir Dave tocar acordes da música número um da banda da qual ambos fizeram parte até há muito pouco tempo. Não pôde evitar um sorriso.
Olhou para o relógio. Eram 5 horas da tarde. Ultimamente não conseguia acordar antes dessa hora, se dormisse.
"Ontem telefonaram-me outra vez"
Dave parou de tocar e olhou para ele, interessado.
"Responderam?"
"Não"
Ficaram ambos em silêncio.
Saíram de casa e sentaram-se dentro do Oldsmobile Toronado de Dave, durante algum tempo, cada um absorto nos seus pensamentos.
"Matt?"
Olhou para Dave e viu-lhe um enorme sorriso desenhado no rosto.
"Hoje vou-te levar a um sítio", e o sorriso alongou-se mais ainda.
"Onde?"
"Um lugar especial", disse.
Acendeu um cigarro, "Depois vês", e ligou o automóvel.

Parte 2 - À deriva

Numa casa junto à praia, o vento passava despercebido a Joan, enquanto a chuva se confundia com as lágrimas abundantes e pesadas que escorregavam pela sua face cansada e triste.
Tinha finalmente engolido o orgulho e tentou ligar...mas não teve uma resposta. A tentativa falhou e agora tinha de viver com a dor de saber que afinal não havia uma solução. Já não havia aquela esperança de que se fizesse alguma coisa, tudo poderia mudar.
Pousou então o telefone na mesa-de-cabeceira e encostou-se na almofada. Respirou fundo em busca das forças que a abandonaram e a fizeram ceder ao coração, que a obrigou a fazer a chamada. Pegou num livro e tentou começar a ler, enquanto as lágrimas teimosas caíam aos pares como se tivessem vida e vontade próprias.
Desistiu de tentar ocupar a cabeça com outras coisas. Era uma luta em vão, uma luta que antes de começar já sabia que a havia perdido. Os pensamentos ou talvez as saudades levaram-na até à última vez em que sentiu de verdade.
Coincidia com a última vez que o viu. Estavam parados dentro do carro em frente à estação de comboio que o levaria para longe. O carro cheirava a chocolate, passaram a viagem a comer doces como sempre gostavam de fazer. A conversa nada parecia com um adeus. Quando a pessoa é a certa a espontaneidade é que governa no reino do Amor.
Estava com a mão no manípulo das mudanças como costuma sempre fazer. Foi aí. Foi aí que sentiu a mão de Matt a apertar a sua, forte e suavemente em simultâneo e... arrepiou-se e sentiu as tais borboletas no estômago, que todos dizem sentir quando a pessoa que gostam os beijam. Mas não era preciso mais nada. Nem um beijo. Bastou o toque da sua alma na dela através do simples e perfeito contacto da pele.
Já então as lágrimas tinham vontade própria e Joan sentiu-as a acarinhar-lhe a cara. Tudo o que precisamos de saber não é o beijo que nos diz, porque um beijo sente-se. Um toque ou se sente ou passa despercebido. Depois aconteceu o beijo que provou tudo o que as mãos já lhe tinham dito. O problema era o sentimento que agora só habitava em si, na sua mão, na sua boca, no seu corpo, no seu coração.
E ele partiu. E a última lembrança de Matt é o seu caminhar de costas.
Joan ficou a lembrar de todo o último encontro e de como ficou horas dentro do carro, na esperança de vê-lo chegar a correr e a gritar “Ainda te amo” ou “Quero ficar contigo”. Mas nada disso aconteceu. O mundo permaneceu confuso e virado ao contrário e Joan perdida nele sem nenhum ponto de referência.
A partir daí dedicou-se a fingir sentimentos e a canalizar os seus para as suas poesias. “Pelo menos consegui viver do que escrevo”, pensou. Mas esse pensamento de sucesso não conseguiu parar a batalha entre a tristeza, o conformismo, o desespero e a raiva que, desde esse dia, era travada dentro de si.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Parte 1 - Presente, passado e ...

Lá fora, o vento e a chuva.
Matt olhava pela janela, para a noite. Pensava nela.
A lareira ardia, soltando estalidos calmos e reconfortantes. Matt sempre gostara do mau tempo. Acalmava-o. Ajudava-o a pensar.
O telemóvel começou a vibrar na mesa baixa de vidro. Sentou-se no sofá e bebeu um gole de vodka antes de atender.
"Sim?"
Do outro lado da linha, não houve resposta.
"Brincadeiras de merda", pensou. E pousou o telemóvel com o alta-voz ligado em cima da mesa. Encostou-se para trás no sofá e olhou para o tecto, pensando em tudo o que lhe acontecera ultimamente. Se há quinze dias atrás lhe tivessem dito que estaria hoje a viver numa casa de dois andares luxuosamente mobilada, ter-se ia rido até não poder mais. A vida dele sempre fora assombrada por desastres constantes. Quando acontecia algo de bom, haveria sempre de ocorrer um contratempo que se lhe sobrepusesse e o deitasse abaixo. Não que ele fosse um azarado, simplesmente tinha o mau hábito de tomar decisões erradas.
O ambiente naquela casa era calmo. Demasiado calmo. Lembrava-se de todas as noites que passara em dezenas, talvez centenas de bares e discotecas um pouco por todo o lado. O movimento, as pessoas que saltavam e gritavam na sua direcção, os aplausos e o público que ansiava sempre que a noite não acabasse. O seu público.
A sua velha guitarra Fender repousava encostada ao sofá, como sempre. A única memória física que lhe sobrara de tempos que nunca mais voltariam. O seu sonho de adolescência tornado real, e que agora lhe parecia ter durado apenas um breve momento, um filme demasiado rápido que recordava num suspiro.
Pegou na guitarra e passou o polegar pelas cordas soltas, suavemente. O som do público em êxtase saltou-lhe à memória e não conseguiu conter um suave arrepio de prazer. Sorriu.
Fixou os olhos no fogo da lareira e viu o seu público, lá longe, que gritava em êxtase, de braços no ar, jovens e eufóricos. Loucos. Todos eles à excepção de uma figura estática no centro da multidão. Ela. Era pra ela que ele actuava. Era ela que o fazia superar as suas fobias: o medo de sair à rua, de multidões, de confrontos, da morte. O medo de compromissos, de relações, o medo de amar que ela o obrigara a superar.
Suspirou, e engoliu de um gole o resto do vodka, sentindo o seu calor agradável na garganta.
Pousou a guitarra e levantou-se, dirigindo-se para as escadas com intenção de se ir deitar na sua enorme cama de casal confortável e vazia. Nunca tivera medo da solidão. Estar sozinho era natural para ele.
Deitou-se e adormeceu quase instantaneamente. Não chegou a ouvir a voz que saía do seu telemóvel pousado na mesa de vidro na sala do andar inferior. Uma voz triste mas brilhante, uma voz sofredora, inquieta. Voz essa que ele reconheceria se a tivesse ouvido, e reconheceu mesmo sem a ouvir. Sonhou com ela. Sonhou que ela lhe dizia para voltar para ele. E chorou, sem acordar, enquanto o seu telemóvel no andar de baixo dizia
"Volta…"