sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Parte 8 - Sombras do passado

Joan atendeu o telemóvel.
“Sim?”, disse com uma voz um pouco desconfiada.
“Olá J. Como estás?”
“Alex? És mesmo tu? Bem, nem sei há quanto tempo não sabia nada de ti”
Do outro lado da linha ouviu-se uma gargalhada forçada. “Pois, precisei de algum tempo para pôr as ideias em ordem. Mas não liguei para falar disso.”
“Não? Então?”
“Bem, só pensei que devia avisar-te que me vou casar. O convite deve chegar aí dentro de dias, mas quis dizer-to antes”
“Hum...vejo que há grandes novidades para esses lados. Parabéns. Não sei o que dizer, apanhaste-me desprevenida.”
“Imaginei que sim. Por isso espero ter atenuado o espanto ao ligar-te. E era isso. Agora tenho mesmo de desligar, mas depois falamos melhor. Espero que venhas.”
“Claro que sim.”, disse com pouca convicção.
“Até breve, beijo”
“Beijinho”

Por vezes temos a sensação que conseguimos esquecer totalmente as pessoas, até ao momento em que a vida mostra precisamente que quando as reencontramos conseguimos lembrar-nos de pormenores ínfimos e até ridículos. Joan não sabia de Alex há quase dois anos, desde aquela noite...aquela em que a relação deles mudou. Mas, de repente as lembranças do tempo que passaram juntos, surgiram como uma tempestade e atordoaram-na.
“É nestes momentos em que me sabes melhor”, disse enquanto tirava um cigarro do maço de tabaco e se dirigia para a varanda. Apesar de ser uma fumadora, detestava o cheiro do fumo dentro de casa e no carro.
O vento soprava forte e com violência. Precisou de várias tentativas para o conseguir acender. A inesperada notícia deixou-a pensativa e confusa. Por um lado, estava feliz por ele ter restabelecido a sua vida e ter encontrado alguém que gostasse dele. Mas, por outro, isso levou-a a ter uma visão crítica sobre a sua própria vida e de como estava longe de se sentir feliz e realizada emocionalmente.
Alex era um homem sério, ponderado, romântico, extremamente adulto e de princípios. Era daqueles que nascem para ter um bom emprego, uma família perfeita. No fundo, uma vida considerada como “normal” para a sociedade rígida, retrógrada e intolerante em que vivemos.
“Será que tomei a atitude certa? Será que devia ter dito que sim?”
Joan tentou afastar estes pensamentos da sua cabeça para se focar no problema principal que se havia criado.
“Será que devo ir ao casamento? Como vai ser rever a família dele e os amigos? Que me vão dizer? Como me vão olhar? Se não for será que é pior?”
Nisto o ecrã do telemóvel de Joan ilumina-se com o nome “Alex” a piscar.
“Estou?”
“Joan? Olha é verdade, esqueci-me de te pedir um favor”
“Sim, diz...”
“No casamento queria cantar uma música para a minha noiva, mas queria que fosse original. Será que não me podes escrever uma?”, falou como se fosse um menino a pedir um brinquedo qualquer aos pais.
“O quê??”

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