segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Parte 7 - O Último Concerto

Deitado num sofá, numa sala pequena e mal iluminada atrás do palco, Matt ouvia as vozes do público que teria de enfrentar dentro de minutos. De olhar fixo no tecto, beberricava com ar cansado uma garrafa de vodka.
Dave estava sentado no chão, de costas apoiadas no sofá, com um sorriso na cara, como sempre. Discutia um assunto qualquer com Danny. Do pouco que Matt ouviu da conversa, pareceu-lhe que Danny tinha algo contra homens que não tiravam as meias antes do sexo.
Danny era a vocalista da banda, Danielle. Antes de entrar na banda, nenhum deles a conhecia. Apareceu do nada, num dos ensaios, e disse "Ouvi dizer que estão à procura de vocalista", e mal a ouviram cantar, foi aceite por unanimidade. Tinha uma voz espantosamente versátil, e desde a primeira música que notaram uma química entre a voz dela e o tipo de música que pretendiam criar.
"Experimenta foder sem tirar as cuecas, David. Vais ver que não é a mesma coisa", disse Danny a meio de um ataque de riso. Dave atirou-lhe uma almofada rasgada e uma nuvem de pó e algodão encheu o ar, fazendo-os tossir enquanto se riam e rebolavam pelo chão como crianças.
Quase desde que se conheceram, sempre tiveram uma relação muito próxima, apesar de nunca se envolverem físicamente. Uma relação de irmãos.
Gregory, o génio da banda, estava sentado no outro sofá, em silêncio, enquanto enrolava um charro. Era sobredotado, e uma pessoa de enorme talento, em praticamente qualquer área. Quando entrara para a banda não sabia distinguir uma guitarra de um baixo, e passado uma semana já conseguia acompanhar Matt e Dave sem precisar de grandes explicações. Mas, sem dúvida, o que lhe tinha concedido o passe de entrada para o grupo fora a sua escrita poética, pela qual Dave se apaixonara desde o primeiro verso. Fumava constantemente, tanto que Danny certo dia dissera-lhe que a sua pele estava a ficar cinzenta do fumo do tabaco, dando-lhe a alcunha de Gray.
O volume das vozes do público aumentava gradualmente. Matt engoliu o que restava da garrafa de vodka e levantou-se, ao mesmo tempo que Stephanie abria a porta e os avisava que o espetáculo estava prestes a começar.
Dirigiram-se ao palco. Matt e Gray iam à frente. Gray inexpressivo, Matt com uma expressão taciturna no rosto, uma mistura de mau humor com tristeza. Atrás os dois irmãos seguiam abraçados e risonhos.
Entraram em palco e foram recebidos por gritos e assobios do público em êxtase. Era uma multidão enorme, que ocupava praticamente todo o relvado do estádio de futebol em que o concerto tinha lugar, e ainda uma boa parte da bancada.
Assumiram os seus lugares habituais em palco. As luzes do palco diminuiram de intensidade, deixando-os numa ténue penumbra azul celeste. O público fez silêncio, e aguardou expectante.
Uma luz clara incidiu sobre Danny. Ela caminhava pelo enorme palco no seu passo suave, saboreando a tensão causada pelo silêncio das milhares de pessoas que tinham os olhos postos nela.
Dos seus lábios, começou por sair um murmúrio suave e sensual, como um beijo, que foi aumentando num crescendo de emoção, deixando o público em transe, enquanto Danny os hipnotizava, com a voz cada vez mais elevada. O baixo agora acompanhava a voz, num ritmo constante mas que se ia tornando mais forte, mais profundo. A guitarra ia soltando pequenos sons que ecoavam cristalinos e brilhantes. Os pratos da bateria faziam o coração saltar, e toda a multidão era percorrida por arrepios de prazer na espinha. Danny cantava agora com raiva, com ódio, e a música era uma tempestade, que fazia o mundo tremer.
De súbito, um grito furioso e prolongado soltou-se da sua boca. Os outros instrumentos pararam, o público susteve a respiração, e o grito de Danny ecoou e voou para longe.
Após vários segundos de silêncio milhares de pessoas saíram do seu transe em simultâneo, e gritaram a plenos pulmões, em delírio, como se tivessem acabado de assistir ao acontecimento mais belo das suas vidas, como se a sua existência dependesse disso, gritavam, saltavam, e comprimiam-se uns contra os outros como sardinhas em lata.
Danny sorria e fixava o público com o seu olhar sensual, sentindo-se uma deusa em cima de um altar. Apetecia-lhe saltar para a massa de pessoas que se esticava na sua direcção, e deixar que a segurassem acima deles e a fizessem flutuar por cima das suas mãos como se voasse.
Ouviu um baque e um som electrico intermitente. Sem perceber porquê as vozes do público ficaram mudas.
Só se voltou quando Matt passou por trás de si a correr na direcção de Gray, que se encontrava estendido no chão, com o corpo a ser atacado por espasmos violentos.

As luzes apagaram-se e o público rugiu indignado.

1 comentário:

  1. o bacardi-cola inspirou-te...
    ñ esperava esta imaginação toda da tua parte, mas nota-se perfeitamente q a música para ti é algo q te faz 'sentir' bem...

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