sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Parte 6 - Destino

Era alto, mas franzino. Parecia furioso quando bateu com os nós dos dedos no vidro do carro mas, mal abriu a boca, essa primeira impressão foi dizimada pela sua voz doce e pausada.
“Não olha por onde anda?”
“Desculpe. Hoje não é um bom dia. Estou muito atrasada e nem vi o seu carro.”
“Hum..hum..”
“Mas não se preocupe que o meu seguro cobre tudo!”
“Está tudo bem. Acontece a todos.”
Após a habitual troca de dados, dirigiu-se finalmente para a Faculdade de Letras onde avisou os alunos que a aula seria compensada noutra hora e que estavam dispensados.
Enquanto se dirigia para a sala de professores, ouviu uma voz bem-disposta.
“Joan?..Bom dia”, disse Jenny com um enorme sorriso.
Era uma das suas melhores amigas e lecciona a cadeira de História da Arte. Tinha a particularidade de fazer sorrir toda a gente e, por isso, era uma companhia imprescindível.
“Bom dia. Hoje devo vencer os teus azares. Ao vir para o trabalho bati num carro de um homem.”
“Interessante. É giro e tem nome?”
“Tem nome e não é giro. Mas tem ar de ser boa pessoa, porque nem sequer ficou muito aborrecido.”
“Então não percebo onde é que tiveste azar. Só se não ficaste com o número de telefone dele.”
Joan riu-se. “Por acaso fiquei, mas só porque tivemos de trocar contactos por causa do acidente.”
“Interessante. Mas conta-me tudo ao almoço que a Allison já deve estar à nossa espera no restaurante do costume”.
Quando chegaram não viram a sua amiga, então meteram conversa com o dono. O senhor Noah era sempre simpático, recebendo-as com alguma piada na ponta da língua. Depois ria-se e o seu bigode e aspecto rechonchudo tornavam-no completamente paternal.
Entretanto avistaram Allison do outro lado da rua. É advogada, por isso usa sempre um vestuário mais formal e uma cara séria. Talvez devido à sua formação profissional era sempre racional em relação a qualquer assunto, o que ajudava muito Joan. Era a sua melhor amiga desde o secundário e conhecia mais de si do que ela mesma, o que por vezes até achava estranho.
“Desculpem o atraso. Pessoas. Problemas. Teimosia. Pessoas mais problemas igual a teimosia que sobra para a Justiça e que me faz atrasar”.
“Ih...que bom humor”, brincou Jenny, “Joan conta-lhe o teu acidente que pode ser que ela se ria”.
Joan contou então tudo o que aconteceu desde a noite passada até ao acidente. As amigas passaram o almoço a incentivá-la a ligar a Seth, “o homem que parecia boa pessoa”. No fundo, incentivavam-na a ganhar vontade de encontrar alguém por quem se voltasse a apaixonar. Era quase um ritual diário. Mudava apenas o alvo. Desta feita era Seth cujo nome ecoou em cada frase dita.
Depois de dar as suas aulas, Joan resolveu voltar directamente para casa. Sentia que tinha passado o dia a correr, sem tempo para pensar em nada. A caminho ria-se ao pensar nas piadas das amigas sobre como o destino se tinha fartado de esperar que ela agisse e então se calhar resolveu “chocar” contra ela.
Entrou em casa e atirou-se para o sofá enquanto pensava na sua vida emocional. Quase imediatamente ouve o telemóvel a tocar dentro da mala. Contrariada volta a levantar-se e pega nele.
“Só podem estar a brincar comigo...”

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Parte 5 - Ela

Mal o Toronado cortou para um acesso secundário ao lado de um vasto eucaliptal, Matt adivinhou qual a grande surpresa de Dave. Lembrava-se da primeira vez que ali fora, ainda o eucaliptal não passava de uma área enorme cheia de plantas silvestres rasteiras, com carreiros e sulcos abertos pelas rodas das motas dos adeptos do motocross que costumavam por ali andar aos saltos, a maioria deles em motoretas dos avós.
O toronado voltou a cortar, uns minutos depois, desta vez para uma estrada de terra batida ladeada de um lado pela parede de uma encosta íngreme, e do lado oposto por um riacho fundo de águas vagarosas. Sempre tivera medo de passar naquela estrada. Parecia poder ruir a qualquer momento.
Dave sorria. Matt não sabia, mas sorria tanto ou mais do que ele. Já não visitava aquele lugar desde os seus 15 anos de idade e ao longo de todo esse tempo, poucas vezes se lembrara dele. É estranho, como as memórias mais importantes têm tendência a ser esquecidas até ao momento em que chocam connosco de frente.
Saíram do automóvel e olharam em volta como se tivessem entrado num filme projectado pelas suas memória. Nada havia mudado.
"Que tal?"
"Nem acredito...", riu-se Matt, "A nossa primeira sala de ensaios!"
Entraram. O interior estava escuro e frio, como sempre estivera no início dos ensaios. Matt acendeu um isqueiro.
Algo não fazia sentido, mas não conseguia perceber o quê. Lembrava-se da primeira vez que entrara naquele edifício. Tivera a mesma sensação de escuridão permanente que agora, enquanto percorria o corredor que dava acesso ao compartimento principal, mas desta vez, quando passou por baixo do arco que os separava, sentiu que se lembrava da sala de ensaios mais ampla. A luz do isqueiro não lhe permitia mais do que notar algumas silhuetas sombrias à sua frente.
No instante em que Dave ligou a luz, o seu coração saltou.
A sala tinha-se transformado. Não era a sala onde tinham feito inúmeras sessões musicais, e outras menos musicais, muitos anos antes. Não era, muito menos, a sala triste e vazia de que se lembrava quando o seu olhar pousara nela pela primeira vez.
Dave sorria como se aquele fosse o melhor dia da sua vida. Nunca o vira sorrir tanto. E ele tinha o hábito de estar constantemente a sorrir.
"Dave..."
Matt olhou em volta mais uma vez, preplexo, abismado.
A sua velha sala de ensaios não estava ali. Em seu lugar, Dave montara um estúdio de música profissional, com duas divisórias à prova de som, e todo o material que ambos tinham já visto diversas vezes ao longo da sua carreira musical.
"Dave..."
Matt não conseguia falar, os seus olhos, reparava agora, estavam embaciados com as lágrimas que lhe escorriam pela face.
Dave sorria cada vez mais enquanto via o amigo a passear devagar pelo compartimento, a passar a mão em cima da mesa de mistura, como se a acariciasse.
"Ainda não acabaram as surpresas Matt", disse Dave. Matt virou-se para olhar para ele.
"Convidei alguém que precisava de te ver. E sei que tu também precisas.", disse.
E detrás dele saiu uma rapariga baixinha e magra, com cabelos pretos, compridos, pelo fundo das costas. Trazia vestida uma mini-saia preta e uma t-shirt branca com manchas pretas que, Matt sabia, tinha sido ela própria a fazer. Dos seus pulsos pendiam inúmeras pulseiras das mais variadas cores e feitios, e no pescoço, do lado esquerdo, via-se uma cicatriz cor-de-rosa, fina e comprida. Os seus olhos eram de uma tonalidade de castanho-claro que os tornava vivos e alegres.
Era ela.
"Olá Mattie"
"Stephanie?..."

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Parte 4 - Azares...

Joan acordou com umas pequenas partículas de luz a bater-lhe na cara como se estivessem a espreitar curiosas por entre as frechas da persiana. Mexeu-se na cama para ganhar coragem de se levantar, mas ouviu o barulho peculiar de algumas folhas a cair. “Ainda agora começou o dia e já está esta confusão”, resmungou como se alguém a estivesse a ouvir.
Num dia normal teria se deliciado com o sol a invadir-lhe o quarto de uma luz carregada de esperança e com a serenidade e paz que o barulho do mar lhe trazia. Foi essa a razão de se mudar para a praia. Por si e para conseguir escrever sem grandes distracções.
Levantou-se com o mundo em cima dos ombros, abriu a persiana e foi à varanda. Respirou fundo e abriu os braços como que à espera que o vento a levitasse, transportando-a para outro mundo. Um mundo onde pudesse voltar a sentir-se completamente feliz. E apesar de tudo, sorriu. "A beleza do mundo e a alegria das coisas conspiram contra os maus sentimentos a toda a hora. Nós é que não nos deixamos levar". Com isto em mente o seu sorriso tornou-se sincero e não apenas uma forma de se enganar.
Regressou ao quarto e viu a meia dúzia de folhas no chão. Lembrou-se que ontem não conseguia dormir e fez alguns rascunhos de poemas. Apressou-se a apanhá-las. A bagunça recordava-lhe o desespero e a dor da noite passada. Mesmo assim, não aguentou a curiosidade e leu o que estava escrito numa das folhas.

“Ameno inverno,
Nascido em ti...
Amor eterno
Nascido em nós
Só tu,
Acalmas esta alma perdida
Só tu,
Fazes bater este teu coração
Leve e suave brisa ecoa no ouvido
Quando me sussurras.
Encontrei-me ao te pertencer
Venço o tempo só para te ter
Ergo-me confiante,
Para o melhor fazer
Porque és tu
Todo o meu ser...”


Suspirou. Mas antes que pudesse pensar sobre o assunto reparou nas horas e no quanto estava atrasada para ir dar a sua aula de Escrita Criativa. Guardou as folhas numa pasta e correu para arranjar-se.
Há quem espere que o tempo resolva todos os problemas emocionais e, desta vez, resolveu...pelo menos a curto prazo. Se não estivesse atrasada iniciava-se o ciclo de bombardeamentos de pensamentos e sentimentos que sempre a deixavam completamente em baixo, sem vontade para nada, sem auto-estima e num estado tão desesperado, consequência de não saber lidar com o que sentia. Parecia quase doentio.
Meia-hora depois, Joan estava a sair de casa no seu Audi A3 prateado. Mas desta feita o tempo já não estava a seu favor e a pressa custou-lhe um acidente contra um Toyota com poucos anos.
“Só me faltava mais esta”, pensou enquanto via um indivíduo a aproximar-se da sua porta com cara de poucos amigos.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Parte 3 - Um lugar especial

Estava em cima de um palco, sozinho.
As luzes de néon na parede piscavam intermitentes a palavra "Sai".
Ele gritava e martelava as cordas da guitarra sem que nenhum som se fizesse ouvir. Em menos de um piscar de olhos, o bar estava cheio, mas ninguém no público se mexia, apenas olhavam, expectantes. Olhou para trás e os restantes elementos da sua banda não eram os seus amigos. Não eram ninguém. Apenas fantasmas sem cara, inertes como bonecos de cera.
Do meio do público soltou se um grito
"Matt!!", gritava ela tentando abrir caminho através das pessoas que mais pareciam uma floresta cerrada apenas criada para impedir a sua passagem.
"…", gritara, mas o som não saíra.
E foi então que o público ganhou vida, e se voltou para ela, esticando os braços, puxando-lhe pelas pernas, afogando-a num mar de gente, até que os seus gritos se deixaram de ouvir, superados pelas vozes monocórdicas da multidão que repetia "Matt… Matt…".
 
Acordou sobressaltado, sem fôlego.
Há muito que este pesadelo o assombrava, de tempos a tempos, mas apesar disso não conseguia evitar o pânico que o envolvia nos primeiros minutos depois de acordar.
Estava suado da cabeça aos pés, os lençóis ensopados.
Desceu ao andar inferior para ir preparar um vodka, que lhe fizesse companhia durante o banho longo que pensava ter. Ouviu o ruído frio do telemóvel a vibrar em cima da mesa de vidro da sala e acelerou o passo para o atender.
"Estou?"
"Matt?"
"Olá Dave", Dave era o seu melhor amigo, desde há tanto tempo quanto se conseguia lembrar. As suas amizades datavam dos tempos em que brincavam juntos no recreio da escola primária, e nunca se afastaram desde então. Tinham muito em comum. Melhor dizendo, sempre tiveram praticamente tudo em comum. O que um queria fazer, o outro não se opunha, e juntava-se-lhe.
"Matt, abre a porta"
Sem uma palavra desligou, e dirigiu-se à porta. Dave entrou e abraçou-o por segundos. Agarrou-lhe nos ombros e olhou para ele. "Estás bem?"
"Sim."
Virou costas e dirigiu-se ao mini-bar. Preparou 2 vodkas, com gelo.
"Fica à vontade Dave", e viu Dave sentar-se no sofá da sala enquanto subia com o copo na mão para tomar banho.
Deitou-se na banheira. Não podia passar o resto do dia com Dave se estivesse abatido: sabia que também ele iria sentir-se mal por si. Tentou animar-se, tirar da cabeça todos os pensamentos negativos. De qualquer forma, não adiantava pensar no passado, se nada podia ser feito para o mudar.
Saiu do banho e desceu as escadas a ouvir Dave tocar acordes da música número um da banda da qual ambos fizeram parte até há muito pouco tempo. Não pôde evitar um sorriso.
Olhou para o relógio. Eram 5 horas da tarde. Ultimamente não conseguia acordar antes dessa hora, se dormisse.
"Ontem telefonaram-me outra vez"
Dave parou de tocar e olhou para ele, interessado.
"Responderam?"
"Não"
Ficaram ambos em silêncio.
Saíram de casa e sentaram-se dentro do Oldsmobile Toronado de Dave, durante algum tempo, cada um absorto nos seus pensamentos.
"Matt?"
Olhou para Dave e viu-lhe um enorme sorriso desenhado no rosto.
"Hoje vou-te levar a um sítio", e o sorriso alongou-se mais ainda.
"Onde?"
"Um lugar especial", disse.
Acendeu um cigarro, "Depois vês", e ligou o automóvel.

Parte 2 - À deriva

Numa casa junto à praia, o vento passava despercebido a Joan, enquanto a chuva se confundia com as lágrimas abundantes e pesadas que escorregavam pela sua face cansada e triste.
Tinha finalmente engolido o orgulho e tentou ligar...mas não teve uma resposta. A tentativa falhou e agora tinha de viver com a dor de saber que afinal não havia uma solução. Já não havia aquela esperança de que se fizesse alguma coisa, tudo poderia mudar.
Pousou então o telefone na mesa-de-cabeceira e encostou-se na almofada. Respirou fundo em busca das forças que a abandonaram e a fizeram ceder ao coração, que a obrigou a fazer a chamada. Pegou num livro e tentou começar a ler, enquanto as lágrimas teimosas caíam aos pares como se tivessem vida e vontade próprias.
Desistiu de tentar ocupar a cabeça com outras coisas. Era uma luta em vão, uma luta que antes de começar já sabia que a havia perdido. Os pensamentos ou talvez as saudades levaram-na até à última vez em que sentiu de verdade.
Coincidia com a última vez que o viu. Estavam parados dentro do carro em frente à estação de comboio que o levaria para longe. O carro cheirava a chocolate, passaram a viagem a comer doces como sempre gostavam de fazer. A conversa nada parecia com um adeus. Quando a pessoa é a certa a espontaneidade é que governa no reino do Amor.
Estava com a mão no manípulo das mudanças como costuma sempre fazer. Foi aí. Foi aí que sentiu a mão de Matt a apertar a sua, forte e suavemente em simultâneo e... arrepiou-se e sentiu as tais borboletas no estômago, que todos dizem sentir quando a pessoa que gostam os beijam. Mas não era preciso mais nada. Nem um beijo. Bastou o toque da sua alma na dela através do simples e perfeito contacto da pele.
Já então as lágrimas tinham vontade própria e Joan sentiu-as a acarinhar-lhe a cara. Tudo o que precisamos de saber não é o beijo que nos diz, porque um beijo sente-se. Um toque ou se sente ou passa despercebido. Depois aconteceu o beijo que provou tudo o que as mãos já lhe tinham dito. O problema era o sentimento que agora só habitava em si, na sua mão, na sua boca, no seu corpo, no seu coração.
E ele partiu. E a última lembrança de Matt é o seu caminhar de costas.
Joan ficou a lembrar de todo o último encontro e de como ficou horas dentro do carro, na esperança de vê-lo chegar a correr e a gritar “Ainda te amo” ou “Quero ficar contigo”. Mas nada disso aconteceu. O mundo permaneceu confuso e virado ao contrário e Joan perdida nele sem nenhum ponto de referência.
A partir daí dedicou-se a fingir sentimentos e a canalizar os seus para as suas poesias. “Pelo menos consegui viver do que escrevo”, pensou. Mas esse pensamento de sucesso não conseguiu parar a batalha entre a tristeza, o conformismo, o desespero e a raiva que, desde esse dia, era travada dentro de si.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Parte 1 - Presente, passado e ...

Lá fora, o vento e a chuva.
Matt olhava pela janela, para a noite. Pensava nela.
A lareira ardia, soltando estalidos calmos e reconfortantes. Matt sempre gostara do mau tempo. Acalmava-o. Ajudava-o a pensar.
O telemóvel começou a vibrar na mesa baixa de vidro. Sentou-se no sofá e bebeu um gole de vodka antes de atender.
"Sim?"
Do outro lado da linha, não houve resposta.
"Brincadeiras de merda", pensou. E pousou o telemóvel com o alta-voz ligado em cima da mesa. Encostou-se para trás no sofá e olhou para o tecto, pensando em tudo o que lhe acontecera ultimamente. Se há quinze dias atrás lhe tivessem dito que estaria hoje a viver numa casa de dois andares luxuosamente mobilada, ter-se ia rido até não poder mais. A vida dele sempre fora assombrada por desastres constantes. Quando acontecia algo de bom, haveria sempre de ocorrer um contratempo que se lhe sobrepusesse e o deitasse abaixo. Não que ele fosse um azarado, simplesmente tinha o mau hábito de tomar decisões erradas.
O ambiente naquela casa era calmo. Demasiado calmo. Lembrava-se de todas as noites que passara em dezenas, talvez centenas de bares e discotecas um pouco por todo o lado. O movimento, as pessoas que saltavam e gritavam na sua direcção, os aplausos e o público que ansiava sempre que a noite não acabasse. O seu público.
A sua velha guitarra Fender repousava encostada ao sofá, como sempre. A única memória física que lhe sobrara de tempos que nunca mais voltariam. O seu sonho de adolescência tornado real, e que agora lhe parecia ter durado apenas um breve momento, um filme demasiado rápido que recordava num suspiro.
Pegou na guitarra e passou o polegar pelas cordas soltas, suavemente. O som do público em êxtase saltou-lhe à memória e não conseguiu conter um suave arrepio de prazer. Sorriu.
Fixou os olhos no fogo da lareira e viu o seu público, lá longe, que gritava em êxtase, de braços no ar, jovens e eufóricos. Loucos. Todos eles à excepção de uma figura estática no centro da multidão. Ela. Era pra ela que ele actuava. Era ela que o fazia superar as suas fobias: o medo de sair à rua, de multidões, de confrontos, da morte. O medo de compromissos, de relações, o medo de amar que ela o obrigara a superar.
Suspirou, e engoliu de um gole o resto do vodka, sentindo o seu calor agradável na garganta.
Pousou a guitarra e levantou-se, dirigindo-se para as escadas com intenção de se ir deitar na sua enorme cama de casal confortável e vazia. Nunca tivera medo da solidão. Estar sozinho era natural para ele.
Deitou-se e adormeceu quase instantaneamente. Não chegou a ouvir a voz que saía do seu telemóvel pousado na mesa de vidro na sala do andar inferior. Uma voz triste mas brilhante, uma voz sofredora, inquieta. Voz essa que ele reconheceria se a tivesse ouvido, e reconheceu mesmo sem a ouvir. Sonhou com ela. Sonhou que ela lhe dizia para voltar para ele. E chorou, sem acordar, enquanto o seu telemóvel no andar de baixo dizia
"Volta…"