quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Parte 10 - Opções

“Que barulho é este?”, resmungou enquanto se levantava ainda com os olhos semicerrados. “Eu sabia que não devia ter vindo morar para um prédio de universitários”. Encheu um copo de água e dirigiu-se para perto da janela da cozinha. Ficou a admirar por um instante o céu extremamente azul daquela manhã de sábado, tentando vencer a claridade que lhe feria os olhos. Espreguiçou-se e depois olhou para baixo. Na rua os rapazes jogavam à bola e faziam a habitual algazarra. Sorriu e começou a lembrar da sua infância, de como era óptimo não ter preocupações e medos. Principalmente medos. De arriscar, de dar o primeiro passo.
Pousou o copo e começou a abanar a cabeça como que, se dessa maneira, os pensamentos ruins o abandonassem. “Vá coragem! Só vais estar com a mulher que amas. Não é nada demais”, disse numa voz alta, grossa e confiante. “Bem, é só um dos momentos mais importantes da tua vida”. Abanou de novo a cabeça e foi arranjar-se, faltava apenas uma hora até encontrar Joan.
Era colega de Allison no escritório de advogados e, mesmo ao fim-de-semana, não largava os trajes formais e sóbrios. Não sabia bem porquê mas era como se sentia bem, ou por demonstrar a sua classe social ou porque condizia com a sua personalidade. Perfumou-se e arrumou o frasco. “Mais um pouco”.
Parou em pé e respirava fundo como que à espera de um sinal enquando olhava para o violão, cuidadosamente pousado no sofá. “Tenho a certeza. É isto que quero fazer. É ela.” Pegou-lhe e saiu do apartamento sem olhar mais para trás.
Tinham combinado encontrar-se num jardim situado no centro da cidade, perto da esplanada onde costumavam ir tomar café. Ao aproximar-se do ponto de encontro com o violão às costas, viu-a sentada calmamente num dos bancos junto à fonte.
“Olá J”, disse carinhosamente.
“Senhor Alexander. Estava a ver que nunca mais chegava.”, disse em jeito de picardia. “Porque andas tu com um violão?”, perguntou enquanto soltava gargalhadas.
“Espera. Não digas nada. Ouve-me só”
Alex começou então a tocar e a cantar uma música romântica para ela, enquanto esta o olhava boquiaberta. Ele passara as últimas semanas a ter aulas para aprender a tocar e a não cantar tão desafinado às suas escondidas. Tudo por ela. Tudo porque sabia o quanto ela adorava música e o solo daquele instrumento. Tudo porque também sabia do seu forte relacionamento com um músico. Joan adorava o mundo artístico e ele não, mas sempre se esforçava para compensar essas diferenças de modo a não criar barreiras.
Num minuto começaram a ser rodeados por pessoas que batiam palmas e soltavam algumas palavras, umas a incentivar outras a zombar, mas nada o fazia perder a atenção que há quatro anos estava presa na bonança do profundo mar azul dos olhos de Joan.
Enquanto o ouvia, por momentos imaginou que era Matt no seu lugar e sorriu de felicidade como se tudo de repente finalmente se encaixasse e fizesse sentido. Mas rapidamente se apercebeu que era só uma fantasia do seu coração.
No final da serenata, ele pousou o violão no chão, tirou um anel do bolso, ajoelhou-se e disse as palavras que estavam entaladas há algum tempo.
“Joan, queres casar comigo?”
Ela não conseguia balbuciar nenhuma palavra e sentia-se projectada para uma outra dimensão como se um buraco se tivesse aberto por debaixo dos seus pés e ainda estivesse em queda livre. Não sabia o que pensar. Não sabia o que estava a sentir. Não sabia o que dizer.
Alex e as pessoas que assistiram a tudo aguardavam ansiosamente alguma resposta. Qualquer coisa.
“Joan...”
“...Podemos falar em privado?”, respondeu finalmente.
“Ah...claro claro...desculpa”, disse. Agradeceu ao público enquanto se levantava e afastou-se finalmente com ela para uma parte deserta do jardim.
“Alex...eu gostei imenso da surpresa...uau, aprenderes a tocar violão por mim...mas o pedido, é um tanto precipitado não achas?”
“Não...pensei muito e não acho.”
“Não te quero magoar, mas eu apesar de gostar muito de ti não gosto o suficiente para dar este passo contigo. Ao ver-te a tocar, por momentos lembrei-me dele. Perdoa-me. Não queria sentir nada disto, queria poder dizer-te que sim”, disse enquanto começava a chorar.
Ele não disse mais nada. Mas com os seus olhos inundados de água, não era preciso. De cabeça baixa, virou-lhe as costas e foi embora.
“Espera...vamos conversar”, gritou Joan sem ficar surpreendida de ele não ter parado. Nunca falava dos seus sentimentos nem se sabia expressar. Sempre sabia o que ele sentia pela forma como a olhava ou pelos seus gestos românticos. Desta vez, ironicamente ela também não sabia o que dizer. Só voltaram a falar poucas semanas depois, numa conversa onde ele depositou nela toda a sua raiva e frustrações como que experimentando pela primeira vez dizer tudo o que sentia de uma vez só. Nunca mais falaram até ele ligar.

Após os telefonemas inesperados, Joan ligou para Allison.
“Porque não me disseste que o Alex se ia casar?”

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Parte 9 - O que ficou por dizer

“Olá Mattie”
“Stephanie?...”
Matt estava incrédulo. Os seus olhos saltavam de Stephanie para Dave como que à procura de uma explicação para a presença dela ali.
“Vou deixar-vos sozinhos. Devem ter muito para falar”, disse Dave com um sorriso, e saiu.
Stephanie olhou para Dave enquanto ele caminhava pelo corredor, e esperou para o ouvir fechar a porta da rua. Piscou os olhos, e sem olhar para Matt, foi-se sentar em frente à mesa de mistura, examinando-a enquanto acendia um cigarro.
Matt continuou estático, apenas girando como um girassol na direcção de Stephanie. Reparou que estava ainda de boca aberta e aproveitou para fechá-la.
“O que achas?”, ouviu-a dizer, sem olhar para ele.
Matt engoliu em seco tentando perceber ao que ela se referia.
“Stephanie?... Que…”
“Acho que isto é algo que tem pernas para andar, não?”, interrompeu-o, “O Dave fez um óptimo investimento. Lá por metade da banda já não existir não quer dizer que tenha chegado ao fim, não é? Não era isso que querias?”
Stephanie olhou para Matt que estava outra vez de boca aberta, atarantado a olhar para ela.
“Não era esse o teu sonho? Poder continuar o trabalho sozinho?”
Matt estremeceu, como se tivesse acordado de um transe.
“Eu… Tu… Que estás aqui a fazer?” , conseguiu balbuciar.
Stephanie soltou uma gargalhada sonora e colocou um meio sorriso, sarcástico.
“Não é óbvio? Venho mais uma vez colocar o meu carisma, conhecimento e contactos ao vosso dispor, em troca de uma percentagem justa dos lucros.”, apagou o cigarro, “Não foi isso que sempre fiz?”
Matt deu um passo na direcção dela.
“O que estás aqui a fazer?”, disse Matt. A sua expressão era agora um misto de incredulidade e raiva, “Estás a tentar magoar-me? Qual é a tua ideia?”
A expressão de Stephanie ficou pesada. Levantou-se e foi ter com ele, num passo calmo, distraído.
“Como queres que te fale Matthew?”, disse, sem emoção. Estava agora a menos de um passo dele. Olhava para o chão enquanto falava. “Queres que me atire aos teus braços e faça de conta que nada aconteceu? Queres que te dê a mão para a poderes largar outra vez?”
Matt não respondeu.
“É ISSO QUE QUERES?”, gritou Stephanie enquanto o empurrava violentamente contra a parede atrás dele, “DESTRUIR A MINHA VIDA OUTRA VEZ?”, e deixou-se cair no chão, de joelhos, sem conseguir conter as lágrimas.
Matt olhava-a de olhos muito abertos.
“Stephie…”


“Não está a funcionar Stephie…”
Ela olhava para o outro lado da estrada, sem expressão.
“A banda foi-se, eu não sei para onde vou, tu vais continuar o teu trabalho com alguém…”, continuou Matt.
“Que vais tu fazer Matthew? Arranjar um emprego?”, soltou uma risada curta e seca.
Matt pegou-lhe no braço e virou-a para si.
“Quero tocar. Vou tocar. Sozinho”
Ela afastou-se e deu uma passa no cigarro, devagar.
“Matt… A vossa banda era algo de fenomenal. O público adorava-vos. Não a cada um, mas a todos, ao conjunto. Sozinho não fazes nada, e tu sabes disso. Se não ficares comigo, acabas a dormir na rua”
“É essa a opinião que tens de mim, Stephanie?”, gritou.
Ela continuou a fumar calmamente. Olhou para ele de lado, durante uns segundos, sem dizer nada, e voltou a concentrar-se no cigarro.
“Veremos”, disse Matt, com um esgar de raiva. Pegou na mala da guitarra e desapareceu.



“Stephie…”
Nunca pensou que ela nutrisse por ele um sentimento tão forte. Nunca o mostrara. Nunca a tinha visto a mostrar qualquer sentimento, pensou ele. Muito menos, a chorar.
Tentou pousar-lhe uma mão no ombro, mas ela afastou-se.
“Matt, pensas que depois daquele dia fui à minha vida, feliz e contente? Enganas-te. Nunca deixei de pensar em ti.”, pela sua face escorriam lágrimas brilhantes, que ela tentava agora tapar com as mãos.
Matt ajoelhou-se à frente dela. Puxou-a contra si e abraçou-a carinhosamente, tentando acalmá-la.
“Desculpa…”, disse Matt encostando os lábios ao ouvido dela, “Nunca te quis magoar… Não pensei… Não pensei que gostasses mesmo de mim, sabes?”
Deixaram-se ficar abraçados, de joelhos no chão, durante muito tempo.
Desde o dia em que se tinham separado, Matt pensava nela diariamente. Nunca a esquecera, mas também nunca tencionara voltar. Ele amara Stephanie, mas nada é eterno. Durante o tempo que passara sem ela tudo se esfumara, parecendo-lhe agora uma ilusão, um desenho na areia que o vento foi apagando.
Segurava-a nos braços e quase chorava. Tinha pena de não ter dado certo entre eles. Eram perfeitos, na altura. Como é que as pessoas mudam tanto? Porque é que só agora se apercebia de quem era, e de quem ela era, na realidade?
Lá fora, começava já a anoitecer.
“Mattie?”
Stephanie afastou a cara do seu peito e olhou-o nos olhos com uma expressão terna, mas triste.
“Sei que devia ter dito isto há muito tempo, mas…”, desviou o olhar por momentos, e voltou a fixá-lo no dele, “Eu amo-te”.
Matt afastou-se, repentinamente, e pôs-se de pé.
Estava de costas para ela. Ela olhava-o sem perceber.
“Sim Stephie…”, disse, com a voz trémula, “Já devias ter dito isso há muito tempo…”
“Matt…”
Matt deixou-se ficar inerte durante muito tempo. Olhava para a parede à espera que esta lhe desse uma resposta para todas as perguntas que tinha na cabeça. Porquê agora? Porquê assim?...
Levou uma mão aos olhos e esfregou-os para conter as lágrimas, e suspirou.
“Agora, já nada faz sentido”, disse, enquanto abria a porta, “Desculpa…”
“Vais me virar as costas e fugir outra vez, Matthew?”, disse ela em voz baixa, com as mãos no chão, os cabelos negros à frente dos olhos.
“Vou”, disse Matt, “Mas desta vez já não quero que venhas atrás de mim”
Stephanie levantou os olhos para ele. Ele sorria, um sorriso triste. Também ele tinha lágrimas nos olhos.
“Também isso, já o devias ter feito há muito tempo”

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Parte 8 - Sombras do passado

Joan atendeu o telemóvel.
“Sim?”, disse com uma voz um pouco desconfiada.
“Olá J. Como estás?”
“Alex? És mesmo tu? Bem, nem sei há quanto tempo não sabia nada de ti”
Do outro lado da linha ouviu-se uma gargalhada forçada. “Pois, precisei de algum tempo para pôr as ideias em ordem. Mas não liguei para falar disso.”
“Não? Então?”
“Bem, só pensei que devia avisar-te que me vou casar. O convite deve chegar aí dentro de dias, mas quis dizer-to antes”
“Hum...vejo que há grandes novidades para esses lados. Parabéns. Não sei o que dizer, apanhaste-me desprevenida.”
“Imaginei que sim. Por isso espero ter atenuado o espanto ao ligar-te. E era isso. Agora tenho mesmo de desligar, mas depois falamos melhor. Espero que venhas.”
“Claro que sim.”, disse com pouca convicção.
“Até breve, beijo”
“Beijinho”

Por vezes temos a sensação que conseguimos esquecer totalmente as pessoas, até ao momento em que a vida mostra precisamente que quando as reencontramos conseguimos lembrar-nos de pormenores ínfimos e até ridículos. Joan não sabia de Alex há quase dois anos, desde aquela noite...aquela em que a relação deles mudou. Mas, de repente as lembranças do tempo que passaram juntos, surgiram como uma tempestade e atordoaram-na.
“É nestes momentos em que me sabes melhor”, disse enquanto tirava um cigarro do maço de tabaco e se dirigia para a varanda. Apesar de ser uma fumadora, detestava o cheiro do fumo dentro de casa e no carro.
O vento soprava forte e com violência. Precisou de várias tentativas para o conseguir acender. A inesperada notícia deixou-a pensativa e confusa. Por um lado, estava feliz por ele ter restabelecido a sua vida e ter encontrado alguém que gostasse dele. Mas, por outro, isso levou-a a ter uma visão crítica sobre a sua própria vida e de como estava longe de se sentir feliz e realizada emocionalmente.
Alex era um homem sério, ponderado, romântico, extremamente adulto e de princípios. Era daqueles que nascem para ter um bom emprego, uma família perfeita. No fundo, uma vida considerada como “normal” para a sociedade rígida, retrógrada e intolerante em que vivemos.
“Será que tomei a atitude certa? Será que devia ter dito que sim?”
Joan tentou afastar estes pensamentos da sua cabeça para se focar no problema principal que se havia criado.
“Será que devo ir ao casamento? Como vai ser rever a família dele e os amigos? Que me vão dizer? Como me vão olhar? Se não for será que é pior?”
Nisto o ecrã do telemóvel de Joan ilumina-se com o nome “Alex” a piscar.
“Estou?”
“Joan? Olha é verdade, esqueci-me de te pedir um favor”
“Sim, diz...”
“No casamento queria cantar uma música para a minha noiva, mas queria que fosse original. Será que não me podes escrever uma?”, falou como se fosse um menino a pedir um brinquedo qualquer aos pais.
“O quê??”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Parte 7 - O Último Concerto

Deitado num sofá, numa sala pequena e mal iluminada atrás do palco, Matt ouvia as vozes do público que teria de enfrentar dentro de minutos. De olhar fixo no tecto, beberricava com ar cansado uma garrafa de vodka.
Dave estava sentado no chão, de costas apoiadas no sofá, com um sorriso na cara, como sempre. Discutia um assunto qualquer com Danny. Do pouco que Matt ouviu da conversa, pareceu-lhe que Danny tinha algo contra homens que não tiravam as meias antes do sexo.
Danny era a vocalista da banda, Danielle. Antes de entrar na banda, nenhum deles a conhecia. Apareceu do nada, num dos ensaios, e disse "Ouvi dizer que estão à procura de vocalista", e mal a ouviram cantar, foi aceite por unanimidade. Tinha uma voz espantosamente versátil, e desde a primeira música que notaram uma química entre a voz dela e o tipo de música que pretendiam criar.
"Experimenta foder sem tirar as cuecas, David. Vais ver que não é a mesma coisa", disse Danny a meio de um ataque de riso. Dave atirou-lhe uma almofada rasgada e uma nuvem de pó e algodão encheu o ar, fazendo-os tossir enquanto se riam e rebolavam pelo chão como crianças.
Quase desde que se conheceram, sempre tiveram uma relação muito próxima, apesar de nunca se envolverem físicamente. Uma relação de irmãos.
Gregory, o génio da banda, estava sentado no outro sofá, em silêncio, enquanto enrolava um charro. Era sobredotado, e uma pessoa de enorme talento, em praticamente qualquer área. Quando entrara para a banda não sabia distinguir uma guitarra de um baixo, e passado uma semana já conseguia acompanhar Matt e Dave sem precisar de grandes explicações. Mas, sem dúvida, o que lhe tinha concedido o passe de entrada para o grupo fora a sua escrita poética, pela qual Dave se apaixonara desde o primeiro verso. Fumava constantemente, tanto que Danny certo dia dissera-lhe que a sua pele estava a ficar cinzenta do fumo do tabaco, dando-lhe a alcunha de Gray.
O volume das vozes do público aumentava gradualmente. Matt engoliu o que restava da garrafa de vodka e levantou-se, ao mesmo tempo que Stephanie abria a porta e os avisava que o espetáculo estava prestes a começar.
Dirigiram-se ao palco. Matt e Gray iam à frente. Gray inexpressivo, Matt com uma expressão taciturna no rosto, uma mistura de mau humor com tristeza. Atrás os dois irmãos seguiam abraçados e risonhos.
Entraram em palco e foram recebidos por gritos e assobios do público em êxtase. Era uma multidão enorme, que ocupava praticamente todo o relvado do estádio de futebol em que o concerto tinha lugar, e ainda uma boa parte da bancada.
Assumiram os seus lugares habituais em palco. As luzes do palco diminuiram de intensidade, deixando-os numa ténue penumbra azul celeste. O público fez silêncio, e aguardou expectante.
Uma luz clara incidiu sobre Danny. Ela caminhava pelo enorme palco no seu passo suave, saboreando a tensão causada pelo silêncio das milhares de pessoas que tinham os olhos postos nela.
Dos seus lábios, começou por sair um murmúrio suave e sensual, como um beijo, que foi aumentando num crescendo de emoção, deixando o público em transe, enquanto Danny os hipnotizava, com a voz cada vez mais elevada. O baixo agora acompanhava a voz, num ritmo constante mas que se ia tornando mais forte, mais profundo. A guitarra ia soltando pequenos sons que ecoavam cristalinos e brilhantes. Os pratos da bateria faziam o coração saltar, e toda a multidão era percorrida por arrepios de prazer na espinha. Danny cantava agora com raiva, com ódio, e a música era uma tempestade, que fazia o mundo tremer.
De súbito, um grito furioso e prolongado soltou-se da sua boca. Os outros instrumentos pararam, o público susteve a respiração, e o grito de Danny ecoou e voou para longe.
Após vários segundos de silêncio milhares de pessoas saíram do seu transe em simultâneo, e gritaram a plenos pulmões, em delírio, como se tivessem acabado de assistir ao acontecimento mais belo das suas vidas, como se a sua existência dependesse disso, gritavam, saltavam, e comprimiam-se uns contra os outros como sardinhas em lata.
Danny sorria e fixava o público com o seu olhar sensual, sentindo-se uma deusa em cima de um altar. Apetecia-lhe saltar para a massa de pessoas que se esticava na sua direcção, e deixar que a segurassem acima deles e a fizessem flutuar por cima das suas mãos como se voasse.
Ouviu um baque e um som electrico intermitente. Sem perceber porquê as vozes do público ficaram mudas.
Só se voltou quando Matt passou por trás de si a correr na direcção de Gray, que se encontrava estendido no chão, com o corpo a ser atacado por espasmos violentos.

As luzes apagaram-se e o público rugiu indignado.