quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Parte 11 - O anjo da guarda

Ouviu um barulho estridente. Uma buzina de um carro, talvez.
A sua boca sabia a terra húmida e as costas doíam-lhe terrivelmente.
Rodou o corpo para conseguir tirar a cara do chão e piscou os olhos tentando perceber onde estava.
“Serviço de quartos”
Levantou-se de um salto e olhou na direcção daquela voz que lhe soava tão familiar.
“Dave?”
Dave aproximou-se com o seu eterno sorriso nos lábios.
“Olá Matthew. Noite animada? Não te fica mal o estilo sem-abrigo, mas está um bocado fora de moda, não?”
Matt olhava para Dave, boquiaberto. Estava quase irreconhecível sem os seus habituais calções largos e t-shirt. Trazia vestido um fato caro e uma gravata preta com finas riscas vermelhas. Olhava para Matt de mãos nos bolsos, com aspecto de gangster moderno.
“Anda daí”, disse enquanto rodeava Matt com um braço, “Parece-me que precisas de uma vida nova.”
“Que… Dave? Como me encontraste? Que roupa é essa?”
“Tudo a seu tempo. Primeiro, tomas um banho enquanto te preparo qualquer coisa para comeres. Vá, entra.”
Matt fitava-o, apático, enquanto ele o conduzia, num automóvel preto, de aspecto americano, e estacionava em frente do portão de uma enorme casa que lhe parecia uma mansão.
Tomou banho e olhou para o seu reflexo no espelho que cobria toda a parede da casa de banho. Parecia ter envelhecido vários anos, nos últimos meses. A barba e o cabelo compridos e desgrenhados davam-lhe um ar desmazelado e triste.
Desceu as escadas, enquanto acabava de se secar.
Sentou-se em frente a um prato de ovos mexidos com bacon. Dave tinha desapertado a gravata e estava, de pernas cruzadas, com um copo de vodka com gelo pousado na mesa ao lado, a dedilhar a guitarra Fender de Matt.
“Impressionante. Preferes dormir com a cara enfiada na lama do que vender a guitarra para pagar um quarto numa pensão?”, disse Dave em tom de gozo.
“Preferia ter que comer a guitarra do que vendê-la para comprar comida. E não estou assim tão mal… Ontem provavelmente não estava suficientemente sóbrio para encontrar uma cama.”
Dave pousou a guitarra no sofá e voltou para a mesa. Sentou-se a observar Matt, com interesse, enquanto ele levava uma garfada de ovos mexidos à boca.
“’Tão, vaich-te echplicar ou quê?”
“Não fales de boca cheia. Até a tua guitarra é mais asseada que tu.”
“Dave…”
“Ok, ok.”, riu-se, “Que queres saber?”
“Carro? Roupa? A casa? Esse sorriso estúpido que nunca acaba?”, disse Matt sem paciência.
“Bem, o sorriso sempre o tive”, Matt fez cara de enjoado, “Quanto ao carro e a roupa… Lembras-te da banda que tínhamos? Claro que te lembras. Pois bem, pouco tempo depois de cada um ter ido para seu lado, a Stephanie telefonou-me a dizer que as vendas tinham disparado, e que, aparentemente, depois de tu e a Danny desaparecerem, deixando-me só e abandonado naquele estúdio deprimente que já foi o nosso lar, e tendo em conta que tanto tu como a Danny deixaram bem claro que não queriam ter mais nada a ver com a banda… Fiquei encarregue de gastar o dinheiro das vendas como bem entendesse.”
Matt ouvia-o com uma fatia de bacon frito suspensa a dez centímetros da sua boca aberta.
“E, enfim, não gosto de dormir ao relento nem de andar por aí a cheirar a vodka e mijo de cão, ao contrário de certas pessoas”, rasgou um sorriso, “Agora tenho que ir andando. Tenta não fugir outra vez. Foi mais difícil encontrar-te do que imaginas.”, disse enquanto se levantava e se dirigia para a porta.
“Dave, espera. Não vou ficar a viver contigo… E o dinheiro das vendas é teu. Eu disse que não queria nada disso e mantenho a minha palavra, mas não posso ficar aqui.”
“Não vais viver comigo”, disse Dave, “A casa é tua. Prenda de aniversário. Parabéns Matt.”, e saiu, fechando a porta atrás de si.
Matt deixou-se ficar imóvel enquanto ouvia o poderoso motor do Toronado afastar-se.
Nem se lembrara de que era o dia do seu aniversário.


Dave, sentado dentro do carro, sobressaltou-se quando Matt entrou de rompante pela porta do passageiro.
“’Bora”, disse Matt, e encostou a cabeça para trás, de olhos fechados.
“Que se passou?”
“Arranca, David.”
Dave rodou a chave na ignição, ligou as luzes e afastou-se da sala de ensaios.
A viagem fez-se longa e silenciosa. O único som além do motor do Toronado era o de Matt a expelir o fumo dos cigarros.
Estacionou o automóvel em frente ao portão da casa de Matt.
“Desculpa Matt… Não pensei que ainda tivessem tanto por resolver.”, disse Dave, olhando em frente. “Não tens que fazer isto só para me agradar”
“Dave…”
Olhou para Matt. Os olhos brilhavam-lhe e tinha um sorriso enorme nos lábios.
“Adorei. Obrigado. Começamos amanhã a trabalhar no estúdio. Vou telefonar à Stephanie para combinar tudo.”, disse Matt.
Dave sorriu de alívio.
“Por momentos assustaste-me. Já estava a pensar que raio iria eu fazer com um estúdio sem ninguém para o usar.”
Riram-se ambos, com vontade.
“Se continuas assim, não sei o que me vais oferecer para o ano. No ano passado, uma mansão, este ano, uma vida nova.”
“Para o ano ofereço-te um carro. Já não basta ter que te dar boleia, ainda tenho que aguentar o cheiro a tabaco nos estofos…”
Matt agarrou-o pelos ombros e abraçou-o com força.
“Feliz aniversário, Matthew.”, disse enquanto lhe dava palmadinhas nas costas.