segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Parte 9 - O que ficou por dizer

“Olá Mattie”
“Stephanie?...”
Matt estava incrédulo. Os seus olhos saltavam de Stephanie para Dave como que à procura de uma explicação para a presença dela ali.
“Vou deixar-vos sozinhos. Devem ter muito para falar”, disse Dave com um sorriso, e saiu.
Stephanie olhou para Dave enquanto ele caminhava pelo corredor, e esperou para o ouvir fechar a porta da rua. Piscou os olhos, e sem olhar para Matt, foi-se sentar em frente à mesa de mistura, examinando-a enquanto acendia um cigarro.
Matt continuou estático, apenas girando como um girassol na direcção de Stephanie. Reparou que estava ainda de boca aberta e aproveitou para fechá-la.
“O que achas?”, ouviu-a dizer, sem olhar para ele.
Matt engoliu em seco tentando perceber ao que ela se referia.
“Stephanie?... Que…”
“Acho que isto é algo que tem pernas para andar, não?”, interrompeu-o, “O Dave fez um óptimo investimento. Lá por metade da banda já não existir não quer dizer que tenha chegado ao fim, não é? Não era isso que querias?”
Stephanie olhou para Matt que estava outra vez de boca aberta, atarantado a olhar para ela.
“Não era esse o teu sonho? Poder continuar o trabalho sozinho?”
Matt estremeceu, como se tivesse acordado de um transe.
“Eu… Tu… Que estás aqui a fazer?” , conseguiu balbuciar.
Stephanie soltou uma gargalhada sonora e colocou um meio sorriso, sarcástico.
“Não é óbvio? Venho mais uma vez colocar o meu carisma, conhecimento e contactos ao vosso dispor, em troca de uma percentagem justa dos lucros.”, apagou o cigarro, “Não foi isso que sempre fiz?”
Matt deu um passo na direcção dela.
“O que estás aqui a fazer?”, disse Matt. A sua expressão era agora um misto de incredulidade e raiva, “Estás a tentar magoar-me? Qual é a tua ideia?”
A expressão de Stephanie ficou pesada. Levantou-se e foi ter com ele, num passo calmo, distraído.
“Como queres que te fale Matthew?”, disse, sem emoção. Estava agora a menos de um passo dele. Olhava para o chão enquanto falava. “Queres que me atire aos teus braços e faça de conta que nada aconteceu? Queres que te dê a mão para a poderes largar outra vez?”
Matt não respondeu.
“É ISSO QUE QUERES?”, gritou Stephanie enquanto o empurrava violentamente contra a parede atrás dele, “DESTRUIR A MINHA VIDA OUTRA VEZ?”, e deixou-se cair no chão, de joelhos, sem conseguir conter as lágrimas.
Matt olhava-a de olhos muito abertos.
“Stephie…”


“Não está a funcionar Stephie…”
Ela olhava para o outro lado da estrada, sem expressão.
“A banda foi-se, eu não sei para onde vou, tu vais continuar o teu trabalho com alguém…”, continuou Matt.
“Que vais tu fazer Matthew? Arranjar um emprego?”, soltou uma risada curta e seca.
Matt pegou-lhe no braço e virou-a para si.
“Quero tocar. Vou tocar. Sozinho”
Ela afastou-se e deu uma passa no cigarro, devagar.
“Matt… A vossa banda era algo de fenomenal. O público adorava-vos. Não a cada um, mas a todos, ao conjunto. Sozinho não fazes nada, e tu sabes disso. Se não ficares comigo, acabas a dormir na rua”
“É essa a opinião que tens de mim, Stephanie?”, gritou.
Ela continuou a fumar calmamente. Olhou para ele de lado, durante uns segundos, sem dizer nada, e voltou a concentrar-se no cigarro.
“Veremos”, disse Matt, com um esgar de raiva. Pegou na mala da guitarra e desapareceu.



“Stephie…”
Nunca pensou que ela nutrisse por ele um sentimento tão forte. Nunca o mostrara. Nunca a tinha visto a mostrar qualquer sentimento, pensou ele. Muito menos, a chorar.
Tentou pousar-lhe uma mão no ombro, mas ela afastou-se.
“Matt, pensas que depois daquele dia fui à minha vida, feliz e contente? Enganas-te. Nunca deixei de pensar em ti.”, pela sua face escorriam lágrimas brilhantes, que ela tentava agora tapar com as mãos.
Matt ajoelhou-se à frente dela. Puxou-a contra si e abraçou-a carinhosamente, tentando acalmá-la.
“Desculpa…”, disse Matt encostando os lábios ao ouvido dela, “Nunca te quis magoar… Não pensei… Não pensei que gostasses mesmo de mim, sabes?”
Deixaram-se ficar abraçados, de joelhos no chão, durante muito tempo.
Desde o dia em que se tinham separado, Matt pensava nela diariamente. Nunca a esquecera, mas também nunca tencionara voltar. Ele amara Stephanie, mas nada é eterno. Durante o tempo que passara sem ela tudo se esfumara, parecendo-lhe agora uma ilusão, um desenho na areia que o vento foi apagando.
Segurava-a nos braços e quase chorava. Tinha pena de não ter dado certo entre eles. Eram perfeitos, na altura. Como é que as pessoas mudam tanto? Porque é que só agora se apercebia de quem era, e de quem ela era, na realidade?
Lá fora, começava já a anoitecer.
“Mattie?”
Stephanie afastou a cara do seu peito e olhou-o nos olhos com uma expressão terna, mas triste.
“Sei que devia ter dito isto há muito tempo, mas…”, desviou o olhar por momentos, e voltou a fixá-lo no dele, “Eu amo-te”.
Matt afastou-se, repentinamente, e pôs-se de pé.
Estava de costas para ela. Ela olhava-o sem perceber.
“Sim Stephie…”, disse, com a voz trémula, “Já devias ter dito isso há muito tempo…”
“Matt…”
Matt deixou-se ficar inerte durante muito tempo. Olhava para a parede à espera que esta lhe desse uma resposta para todas as perguntas que tinha na cabeça. Porquê agora? Porquê assim?...
Levou uma mão aos olhos e esfregou-os para conter as lágrimas, e suspirou.
“Agora, já nada faz sentido”, disse, enquanto abria a porta, “Desculpa…”
“Vais me virar as costas e fugir outra vez, Matthew?”, disse ela em voz baixa, com as mãos no chão, os cabelos negros à frente dos olhos.
“Vou”, disse Matt, “Mas desta vez já não quero que venhas atrás de mim”
Stephanie levantou os olhos para ele. Ele sorria, um sorriso triste. Também ele tinha lágrimas nos olhos.
“Também isso, já o devias ter feito há muito tempo”

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