sábado, 23 de janeiro de 2010

Parte 3 - Um lugar especial

Estava em cima de um palco, sozinho.
As luzes de néon na parede piscavam intermitentes a palavra "Sai".
Ele gritava e martelava as cordas da guitarra sem que nenhum som se fizesse ouvir. Em menos de um piscar de olhos, o bar estava cheio, mas ninguém no público se mexia, apenas olhavam, expectantes. Olhou para trás e os restantes elementos da sua banda não eram os seus amigos. Não eram ninguém. Apenas fantasmas sem cara, inertes como bonecos de cera.
Do meio do público soltou se um grito
"Matt!!", gritava ela tentando abrir caminho através das pessoas que mais pareciam uma floresta cerrada apenas criada para impedir a sua passagem.
"…", gritara, mas o som não saíra.
E foi então que o público ganhou vida, e se voltou para ela, esticando os braços, puxando-lhe pelas pernas, afogando-a num mar de gente, até que os seus gritos se deixaram de ouvir, superados pelas vozes monocórdicas da multidão que repetia "Matt… Matt…".
 
Acordou sobressaltado, sem fôlego.
Há muito que este pesadelo o assombrava, de tempos a tempos, mas apesar disso não conseguia evitar o pânico que o envolvia nos primeiros minutos depois de acordar.
Estava suado da cabeça aos pés, os lençóis ensopados.
Desceu ao andar inferior para ir preparar um vodka, que lhe fizesse companhia durante o banho longo que pensava ter. Ouviu o ruído frio do telemóvel a vibrar em cima da mesa de vidro da sala e acelerou o passo para o atender.
"Estou?"
"Matt?"
"Olá Dave", Dave era o seu melhor amigo, desde há tanto tempo quanto se conseguia lembrar. As suas amizades datavam dos tempos em que brincavam juntos no recreio da escola primária, e nunca se afastaram desde então. Tinham muito em comum. Melhor dizendo, sempre tiveram praticamente tudo em comum. O que um queria fazer, o outro não se opunha, e juntava-se-lhe.
"Matt, abre a porta"
Sem uma palavra desligou, e dirigiu-se à porta. Dave entrou e abraçou-o por segundos. Agarrou-lhe nos ombros e olhou para ele. "Estás bem?"
"Sim."
Virou costas e dirigiu-se ao mini-bar. Preparou 2 vodkas, com gelo.
"Fica à vontade Dave", e viu Dave sentar-se no sofá da sala enquanto subia com o copo na mão para tomar banho.
Deitou-se na banheira. Não podia passar o resto do dia com Dave se estivesse abatido: sabia que também ele iria sentir-se mal por si. Tentou animar-se, tirar da cabeça todos os pensamentos negativos. De qualquer forma, não adiantava pensar no passado, se nada podia ser feito para o mudar.
Saiu do banho e desceu as escadas a ouvir Dave tocar acordes da música número um da banda da qual ambos fizeram parte até há muito pouco tempo. Não pôde evitar um sorriso.
Olhou para o relógio. Eram 5 horas da tarde. Ultimamente não conseguia acordar antes dessa hora, se dormisse.
"Ontem telefonaram-me outra vez"
Dave parou de tocar e olhou para ele, interessado.
"Responderam?"
"Não"
Ficaram ambos em silêncio.
Saíram de casa e sentaram-se dentro do Oldsmobile Toronado de Dave, durante algum tempo, cada um absorto nos seus pensamentos.
"Matt?"
Olhou para Dave e viu-lhe um enorme sorriso desenhado no rosto.
"Hoje vou-te levar a um sítio", e o sorriso alongou-se mais ainda.
"Onde?"
"Um lugar especial", disse.
Acendeu um cigarro, "Depois vês", e ligou o automóvel.

2 comentários:

  1. Epa fantástico, agora estou aqui curiosa com o resto :/ caramba! Bom, mt bom :D

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  2. Boa Bio, tas cá com uma inspiração do caraças... o que faz um amigo do 'coração', 'arrancar-nos' um sorriso depois de acordar-mos de um pesadelo...ansioso por saber o resto...

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