sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Parte 1 - Presente, passado e ...

Lá fora, o vento e a chuva.
Matt olhava pela janela, para a noite. Pensava nela.
A lareira ardia, soltando estalidos calmos e reconfortantes. Matt sempre gostara do mau tempo. Acalmava-o. Ajudava-o a pensar.
O telemóvel começou a vibrar na mesa baixa de vidro. Sentou-se no sofá e bebeu um gole de vodka antes de atender.
"Sim?"
Do outro lado da linha, não houve resposta.
"Brincadeiras de merda", pensou. E pousou o telemóvel com o alta-voz ligado em cima da mesa. Encostou-se para trás no sofá e olhou para o tecto, pensando em tudo o que lhe acontecera ultimamente. Se há quinze dias atrás lhe tivessem dito que estaria hoje a viver numa casa de dois andares luxuosamente mobilada, ter-se ia rido até não poder mais. A vida dele sempre fora assombrada por desastres constantes. Quando acontecia algo de bom, haveria sempre de ocorrer um contratempo que se lhe sobrepusesse e o deitasse abaixo. Não que ele fosse um azarado, simplesmente tinha o mau hábito de tomar decisões erradas.
O ambiente naquela casa era calmo. Demasiado calmo. Lembrava-se de todas as noites que passara em dezenas, talvez centenas de bares e discotecas um pouco por todo o lado. O movimento, as pessoas que saltavam e gritavam na sua direcção, os aplausos e o público que ansiava sempre que a noite não acabasse. O seu público.
A sua velha guitarra Fender repousava encostada ao sofá, como sempre. A única memória física que lhe sobrara de tempos que nunca mais voltariam. O seu sonho de adolescência tornado real, e que agora lhe parecia ter durado apenas um breve momento, um filme demasiado rápido que recordava num suspiro.
Pegou na guitarra e passou o polegar pelas cordas soltas, suavemente. O som do público em êxtase saltou-lhe à memória e não conseguiu conter um suave arrepio de prazer. Sorriu.
Fixou os olhos no fogo da lareira e viu o seu público, lá longe, que gritava em êxtase, de braços no ar, jovens e eufóricos. Loucos. Todos eles à excepção de uma figura estática no centro da multidão. Ela. Era pra ela que ele actuava. Era ela que o fazia superar as suas fobias: o medo de sair à rua, de multidões, de confrontos, da morte. O medo de compromissos, de relações, o medo de amar que ela o obrigara a superar.
Suspirou, e engoliu de um gole o resto do vodka, sentindo o seu calor agradável na garganta.
Pousou a guitarra e levantou-se, dirigindo-se para as escadas com intenção de se ir deitar na sua enorme cama de casal confortável e vazia. Nunca tivera medo da solidão. Estar sozinho era natural para ele.
Deitou-se e adormeceu quase instantaneamente. Não chegou a ouvir a voz que saía do seu telemóvel pousado na mesa de vidro na sala do andar inferior. Uma voz triste mas brilhante, uma voz sofredora, inquieta. Voz essa que ele reconheceria se a tivesse ouvido, e reconheceu mesmo sem a ouvir. Sonhou com ela. Sonhou que ela lhe dizia para voltar para ele. E chorou, sem acordar, enquanto o seu telemóvel no andar de baixo dizia
"Volta…"

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