terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Parte 5 - Ela

Mal o Toronado cortou para um acesso secundário ao lado de um vasto eucaliptal, Matt adivinhou qual a grande surpresa de Dave. Lembrava-se da primeira vez que ali fora, ainda o eucaliptal não passava de uma área enorme cheia de plantas silvestres rasteiras, com carreiros e sulcos abertos pelas rodas das motas dos adeptos do motocross que costumavam por ali andar aos saltos, a maioria deles em motoretas dos avós.
O toronado voltou a cortar, uns minutos depois, desta vez para uma estrada de terra batida ladeada de um lado pela parede de uma encosta íngreme, e do lado oposto por um riacho fundo de águas vagarosas. Sempre tivera medo de passar naquela estrada. Parecia poder ruir a qualquer momento.
Dave sorria. Matt não sabia, mas sorria tanto ou mais do que ele. Já não visitava aquele lugar desde os seus 15 anos de idade e ao longo de todo esse tempo, poucas vezes se lembrara dele. É estranho, como as memórias mais importantes têm tendência a ser esquecidas até ao momento em que chocam connosco de frente.
Saíram do automóvel e olharam em volta como se tivessem entrado num filme projectado pelas suas memória. Nada havia mudado.
"Que tal?"
"Nem acredito...", riu-se Matt, "A nossa primeira sala de ensaios!"
Entraram. O interior estava escuro e frio, como sempre estivera no início dos ensaios. Matt acendeu um isqueiro.
Algo não fazia sentido, mas não conseguia perceber o quê. Lembrava-se da primeira vez que entrara naquele edifício. Tivera a mesma sensação de escuridão permanente que agora, enquanto percorria o corredor que dava acesso ao compartimento principal, mas desta vez, quando passou por baixo do arco que os separava, sentiu que se lembrava da sala de ensaios mais ampla. A luz do isqueiro não lhe permitia mais do que notar algumas silhuetas sombrias à sua frente.
No instante em que Dave ligou a luz, o seu coração saltou.
A sala tinha-se transformado. Não era a sala onde tinham feito inúmeras sessões musicais, e outras menos musicais, muitos anos antes. Não era, muito menos, a sala triste e vazia de que se lembrava quando o seu olhar pousara nela pela primeira vez.
Dave sorria como se aquele fosse o melhor dia da sua vida. Nunca o vira sorrir tanto. E ele tinha o hábito de estar constantemente a sorrir.
"Dave..."
Matt olhou em volta mais uma vez, preplexo, abismado.
A sua velha sala de ensaios não estava ali. Em seu lugar, Dave montara um estúdio de música profissional, com duas divisórias à prova de som, e todo o material que ambos tinham já visto diversas vezes ao longo da sua carreira musical.
"Dave..."
Matt não conseguia falar, os seus olhos, reparava agora, estavam embaciados com as lágrimas que lhe escorriam pela face.
Dave sorria cada vez mais enquanto via o amigo a passear devagar pelo compartimento, a passar a mão em cima da mesa de mistura, como se a acariciasse.
"Ainda não acabaram as surpresas Matt", disse Dave. Matt virou-se para olhar para ele.
"Convidei alguém que precisava de te ver. E sei que tu também precisas.", disse.
E detrás dele saiu uma rapariga baixinha e magra, com cabelos pretos, compridos, pelo fundo das costas. Trazia vestida uma mini-saia preta e uma t-shirt branca com manchas pretas que, Matt sabia, tinha sido ela própria a fazer. Dos seus pulsos pendiam inúmeras pulseiras das mais variadas cores e feitios, e no pescoço, do lado esquerdo, via-se uma cicatriz cor-de-rosa, fina e comprida. Os seus olhos eram de uma tonalidade de castanho-claro que os tornava vivos e alegres.
Era ela.
"Olá Mattie"
"Stephanie?..."

1 comentário:

  1. Bio, que andas a beber para te dar esta inspiração toda, ah?

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